O caos da metrópole em quadrinhos

[15/10/14]

Obras como as de Laerte, Angeli, Adão Iturrusgarai estão na exposição “Cidades em tiras”, que começa na Caixa Cultural

O rio Tietê, o centro histórico, a estação do metrô Clínicas sob o cemitério do Araçá e a avenida Paulista: a metrópole paulistana, cenário de abandono e repressão nos anos 1970, tornou-se laboratório de contracultura e de revistas em quadrinhos “udigrúdi”. Nos anos 1980 e 1990, já eram prestigiadas no cenário alternativo a Níquel Náusea e a Chiclete com Banana, da qual surgiram os Piratas do Tietê, Bob Cuspe, o rato Níquel Náusea e Os Skrotinhos.

O cenário e o comportamento desses e de outros personagens, desenhados por Laerte, Angeli, Fernando Gonzales, Luiz Gê, Adão Iturrusgarai e Spacca é o tema da exposição “Cidades em tiras: a metrópole brasileira através das histórias em quadrinhos”, da Caixa Cultural, que fica aberta de hoje até 1º de dezembro, com visitação de terça a domingo, das 10h às 19h. Hoje, às 19h30, haverá uma visita guiada com o curador, historiador e especialista em quadrinhos Andre Cezaretto.

Da avenida Paulista verticalizada de Luiz Gê ao ambiente imundo de onde saem o sujeito que vive no esgoto de Angeli à revidação caótica do Rio Tietê com a cidade ao tédio e libertinagem de Aline, de Adão, o historiador explica que o recorte serve para enfatizar o cenário como desenvolvimento da narrativa “A cidade é orgânica, é como um personagem também, por isso eles (os personagens) são muito influenciados pelo cenário urbano”. Crítica feita numa sutileza, em cima da banalidade “Em Luiz Gê e Angeli, principalmente, isso é muito perceptível. No caso deste último, sempre quando aparece uma cena na rua, o trânsito tá congestionado. Eles tapam o cenário ao fundo com a cidade vertical — parece que não tem vida após os prédios”.

Além deles, haverá espaço para tiras de Oliver Borges, que não divide o cenário paulista nem os anos de gradual abertura após o regime militar. “O Oliver tem um olhar mais recente, diferente. Os outros têm a mesma origem da imprensa alternativa. A crítica ao modelo da cidade que ele faz é dentro das narrativas das graphic novels (“romances gráficos”)”.

Como a classificação etária é livre, houve um certo cuidado em relação às histórias de Angeli e, segundo o curador, mais ainda às de Adão que envolvem Aline, personagem viciada em sexo. Na Caixa, reproduções das tiras estão distribuidas nos paineis e há um espaço onde o visitante pode ler reproduções das revistas.

REVISTA — Além de lançar os principais quadrinistas nacionais, a Chiclete com Banana trazia tiras dos quadrinhos underground norte-americanos. A publicação foi tema de dissertação do curador, com o título “A vaca vai pro brejo: urbanidade e juventude na revista Chiclete com Banana (1985–1990)”


Serviço

“Cidades em Tiras: a metrópole brasileira através das histórias em quadrinho”
Onde: Caixa Cultural Recife
Quando: 16 de outubro a 2 de dezembro. A abertura será no dia 15, às 19h30, quando o curador fará uma visita guiada à exposição
Entrada Gratuita
Informações: (81) 3425–1900
Classificação livre

*matéria publicada no caderno Programa, da Folha de Pernambuco