O frevo que há na voz de Alcymar

[17/02/14]

foto: divulgação

Às vésperas do carnaval, período em que o frevo é posto mais em evidência, o cantor e compositor Alcymar Monteiro lança hoje o CD e DVD “Vozes do frevo”. A gravação durante apresentação de Alcymar no Parque Dona Lindu, no bairro de Boa Viagem, em setembro do ano passado. Com 30 anos de carreira completos neste ano, este é seu 15º trabalho dedicado exclusivamente ao frevo e que traz referências que vão à base do gênero, como Capiba, Nelson Ferreira, Zumba, Luiz Bandeira, Dona Olga e Dona Duda.

Em visita e entrevista à Folha de Pernambuco, Alcymar afirma que parte da produção do show gravado é decorrente de um ano de planejamento. “Ouvi mais de cem canções e pude perceber que a diversidade musical do frevo é muito elástica. Também não pretendi ser saudosista, mas buscar um resgate — há muita pernambucanidade no trabalho deles”.

O músico, cearense do Distrito de Ingazeira, vive no Recife há 30 anos, mesmo tempo de carreira. Fato não coincidente, segundo ele. “Eu costumava ouvir à Rádio Clube do Ceará, que tocava música pernambucana. Vivia a cantarolar ‘É de fazer chorar’ e ‘Madeiras do Rosarinho’, entre outras. Além da influência do meu pai, que é pernambucano, eu percebia Pernambuco como fornalha da cultura brasileira. O frevo, por exemplo, é um gênero tão brasileiro quanto o samba”, diz. Nesse sentido, as músicas do “Vozes do frevo”, naturalmente trafegam em outros ritmos como ciranda, coco, maracatu e caboclinho. Alcymar viaja a trabalho, mas o cearense, daqui, por paixão, não sai mais. “Só quero sair do Recife para o plano espiritual”.

Alcymar diz ainda ter se aproveitado do momento em que o frevo recebe (em 2012) o título de Patrimônio Imaterial da Humanidade, pela Unesco, e dedicou a primeira faixa do disco para homenagear o atributo de “imorrível”. “O frevo é um gênero forjado nas raízes — de baixo pra cima — e por isso não morre ou é esquecido facilmente como a música industrializada — esta, que vem de cima pra baixo”, alfineta. Outras faixas presentes de destaque no DVD estão “100 anos do frevo” e “O último regresso”, esta última gravada nas vozes de Getúlio Cavalcanti e do Bloco da Saudade. Alcymar reflete sobre a dificuldade de desenvolver e concretizar uma carreira junto ao povo: “A cultura do frevo sofreu um processo enfadonho. Tentamos renovar a linguagem e a proposta melódica. Estamos ‘internetizando’ o frevo, isto é, pondo nas redes, fazendo clipe. Procurando dar acesso”.

Ainda que sua base seja o forró, Alcymar fala da necessidade de o músico trafegar e explorar linguagens diversas, sem romper com uma identidade musical. “Eu nunca me prendi a rótulos. Fui o primeiro cantor de frevo a usar elementos do forró, como a sanfona. O que faz sentido também e não descaracteriza o primeiro, porque o frevo e o forró são primos — além de meus grandes amigos”, diz rindo. “O músico que se repete presta um desserviço a ele mesmo e à música”, arremata.

CARREIRA — Em três décadas de carreira já teve suas músicas gravadas por nomes como Zé Ramalho e Alceu Valença. Já fez duetos com Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Elba Ramalho, Marinês, entre outros. Este é o 88º trabalho de Alcymar.

*matéria publicada no caderno Programa, da Folha de Pernambuco