O sagrado segundo a poeta Matilde Campilho
[24/05/14]

Matilde Campilho, poeta dada a encontros sagrados entre pessoas e eventos avulsos, diz gostar de se debruçar especialmente no estado latente das coisas. A poeta, nascida lisboeta em 1982 e tendo vivido no Rio de Janeiro de 2010 a 2013, fez de sua língua portuguesa (com algum auxílio da inglesa) um atalho para um lugar afetuoso muito íntimo do leitor, onde Coney Island e Ipanema no inverno (do poema “We never did too much talking anyway”) pertencem a uma mesma esquecida nação sem bandeira. “Para reinaugurar o sagrado” é o tema da mesa do Festival Internacional de Poesia do Recife (FIP) em que a poeta participa hoje, às 20h30, junto com o poeta paulista Leandro Durazzo e com mediação do jornalista Hugo Viana, desta Folha de Pernambuco.
Os poemas de Matilde estão nas revistas online Modo de Usar & Co. e Cais, nos jornais O Globo e Folha de São Paulo, além dos poemas em vídeo no seu canal do Youtube e da HQ baseada em um deles “Honey Boo”, desenhada pelo gaúcho Odyr Bernardi. Destes espaços, migrou para uma nova relação: a publicação do primeiro livro, “Jóquei” (Tinta-da-china), lançado há duas semanas em Portugal, e sem previsão para o Brasil. “Claro que eu gostaria muito de ver ele ser publicado aqui, já que mais da metade foi feito no Brasil, e por causa do Brasil que aconteceu em mim”, diz Matilde em entrevista.
“Quando me convidaram para fazer parte deste festival, especialmente desta mesa, precisei parar para pensar. É um tema maravilhoso, mas com o qual é preciso algum cuidado, porque nos remete quase sempre para deuses e santos, para entidades que parecem estar distantes de nosso mundo e de nosso dia-a-dia”, analisa a poeta.
“Respeito muito o sagrado, sabe? E não pela tal distância que parece estar implícita nele, não, porque na verdade acho que essa distância não existe tanto assim. Eu acho que a gente vai assistindo ao sagrado nas esquinas. Seja num tijolo de um edifício ou no olho de uma pessoa. Mas isso sou eu, isso é minha experiência. Acho que em cada amálgama de átomos, em cada existência, existe um pedaço de sagrado. A gente pode escolher ver ou não ver. Brigar com esse pedaço ou não brigar. Eu sou do time daqueles que acreditam num sagrado latente, só à espera de ser olhado e muitas vezes desdobrado. Se for em encontros, que seja”. Deste modo que, em seus escritos recentes em inglês, cita a influência de T.S. Eliot, Lawrence Ferlinghetti, Robert Creeley e Walt Whitman: “é o velho tema da ‘angústia da influência’. Eu só vou tentando transformar a palavra ‘angústia’ em ‘companhia’, em possibilidade de transformação”.
Sobre o estado latente das coisas, Matilde cita uma passagem do filme “Medea”, do diretor italiano Pier Paolo Pasolini, do qual uma criatura mitológica se dirige a um garoto dizendo que tudo é aparição (“tudo é santo e não há nada de natural na natureza”) e finaliza com o reconhecimento de que a santidade é ao mesmo tempo uma maldição. “Acho que essa é a contradição do sagrado no dia-a-dia, ou pelo menos aquilo que tanto nos faz, e me faz, brigar com ele. Sim, tem muito sagrado por aí. Mas a medida de sua imensidão é muitas vezes proporcional à medida de seu peso. Aceitar o sagrado é uma coisa. Aprender a lidar com o sagrado latente no mundo é toda uma outra história”.
Quanto à possibilidade de, além dos vídeos-poema feitos como cartas repletas de lembranças afetivas para amigos em Portugal, escrever de um modo que parece se destinar a alguém, a poeta questiona: “Tudo é um bocado epistolográfico (relativo às cartas), não é? Em tudo há um cunho de ‘eu’, e esse cunho de ‘eu’ vai sempre funcionar um bocado como uma carta ao mundo”.