Olhar social por meio do humor na peça “As bufa”

[23/11/13]

foto: divulgação/marcelo amaral

Duas mendigas ocupam um teatro abandonado. No dia em que as cadeiras, habitualmente vazias, são ocupadas, aos olhos da plateia aparecem dois bufões, figuras grotescas “primas” do palhaço, de comportamento afetado e, neste caso, com ares de duendes da sorte (“good luck trolls”). Celói e Ventania são personagens da peça “As bufa” e se apresentam hoje e amanhã, às 21h, no Teatro de Santa Isabel. O espetáculo faz parte do 16º Festival Recife do Teatro Nacional, que segue até 1 de dezembro. Os ingressos custam R$ 10 e R$ 5 (meia).

As atrizes e diretoras Aline Marques e Simone De Dordi, do grupo Casa de Madeira (RS), começaram o estudo na linguagem do bufão em 2005 e, desde então, venceram o Prêmio Açorianos de Teatro, em 2008, e o Prêmio de Teatro Funarte Myriam Muniz, em 2009 e 2011. O bufão ou o bobo da corte, figura presente na cultura popular que se extinguiu durante a Modernidade, no século 17, era o louco, o marginal.

Por esse motivo, suas falas, atrevidas e ácidas, eram ouvidas com comicidade. Seria uma paródia do coro na tragédia grega com traços de figuras que foram posteriores a ele, como o falstaff, arlequim e pícaros. Depois retornam no século 20, com modernistas como o russo Vsevolod Meyerhold. Celói e Ventania, as bufas que ocuparam o Santa Isabel, fazem paródias que vão de uma alemã nazista a religiosos e figuras da mídia. Simone, que vive Ventania, enfatiza o dito através do não-dito do louco: “O público acaba se identificando muito. Há muita coisa que ele gostaria de dizer e por algum receio não o faz”.

Também não é por acaso a escolha das personagens pelas atrizes, que, através de um ponto de vista social e artístico, defendem a ideia de que “uma expressão artística genuína pode partir também de seres humanos marginalizados, excluídos e afastados do centro comum”. Segundo Simone, foi preciso ir às ruas para criar o espetáculo. “Fizemos muita observação de moradores de rua e depois de nossas figuras ‘personagens’. Saíamos para a rua e convivíamos com os mendigos. Foi uma experiência maravilhosa. Ainda hoje fazemos algumas saídas de rua para resgatar essa essência”.


*matéria publicada no caderno Programa, da Folha de Pernambuco