Semiótica míope e disléxica

um corpo:

1. é tão bonito que é mágico
é tão bonito que é poético
é tão bonito que é matemático
é tão bonito que é lógico
é tão bonito que é ritmado (mas não chega a ser tão bonito pra não mudar o ritmo) na verdade é tão bonito que muda os tempos e as ações, entende — não sei o que vem primeiro para um corpo

é tão bonito que é virtualizado
é tão bonito que é metalinguístico
é tão bonito que a conta da lógica não termina
é tão bonito que é meio estranho

tão bonito que a gente pensa em desistir
tão bonito que fique disléxico
e, consequentemente, tão bonito que eventualmente flutuemos no nada

1.1 tão bonito que fique existencial

1.1 a) tão bonito que fique sutil
tão bonito que pareça simples
tão bonito que fique processual
tão bonito que fique performativo
tão bonito que fique também performático

1.1 b) tão bonito que sempre virão escrever no seu lugar quando você terminar. ou achar que terminou

2. tão bonito que fique circular
tão bonito que fique caótico
tão bonito que faz as mandalas da Nise de Silveira
tão bonito que quem com ele se inscreve quer passar mais tempo
tão bonito que não sei quanto tempo se aguenta e por isso se assusta
tão bonito que é como se nos lançássemos de uma altura grande só que a gente não cai porque descobrimos que estávamos numa montanha-russa e você percebe que é um alívio ouvir aquele silêncio berrante depois do seu grito
tão bonito que é preciso sonhar para entender seus gestos

tão bonito que para de fazer sentido (eventual e fatalmente)
tão bonito que para no tempo cronológico
tão bonito que será preciso criar outros corpos para que o tempo continue

tão bonito que ressignifica
tão bonito que você diz “tudo bem, eu entendo” ou “ai meu deus, eu entendo”
tão bonito que dá para calcular uns anagramas
tão bonito que reexiste e, só então, resiste

tão bonito que, por fim, subverte

em algum tempo que não poderemos saber se é dia, mês, ano ou se é hora, minuto e se eu consigo ouvir os mesmo decibéis que você naquele tic-tac
mas em algum tempo.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.