Sexo a favor da liberdade

[11/11/13]

foto: divulgação

Dona de uma biografia marcada por dores e superações, figura transgressora de Linda Lovelace volta à tona no filme “Lovelace”

Os filmes pornográficos criaram seu próprio percurso junto ao surgimento do cinema no início do século passado. Conhecidos como “stag films”, esses curtas de até sete minutos levavam, ilegalmente, cenas de nudez feminina e atos sexuais, de forma completamente primitiva e sem história. Ao ser marginalizado como expressão artística, a artificialidade de outrora soa familiar a maioria dos filmes do gênero hoje, mas a indústria de filmes pornográficos só encontrou seu modelo mainstream em décadas mais recentes.

Esse arcabouço coletivo de um modelo movido pela indústria se deve ao que foi iniciado nos anos 1970, época que se consagra um gênero “pornô”, quando “Garganta Profunda”, produzido por modestos R$ 25 mil, é exibido nos cinemas como um filme de entretenimento qualquer e acaba por se tornar um dos filmes mais rentáveis da história. Estima-se que tenha arrebatado R$ 600 milhões de dólares, mas o valor real — muito menor, embora ainda tenha cifras milionárias — nunca foi precisamente calculado devido o envolvimento de alguns de seus produtores com a máfia. Ainda, o filme inaugura um sistema de “porn star” ao elevar Linda Lovelace (1949 -2002) ao patamar de estrela de Hollywood, embora a atriz só tenha recebido US$ 1.250 do montante.

Antes da alcunha “Lovelace” por Gerad Damiano, diretor do longa, Linda Susan Boreman é levada ao estúdio pelo marido Chuck Traynor para sair da situação financeira difícil, da qual Chuck controlava. Linda encontrou no marido a saída de casa, onde antes convivia com a repressão da mãe religiosa, que lhe repassou os “valores” de uma esposa obediente ao marido, e a apatia do pai policial.

Se era símbolo de liberação à época, Linda conviveu com a dominação e violência do marido, que não só a agredia fisicamente — fato que ele não nega no documentário “The real Linda Lovelace” (2001) — e abusava como a prostituia. Esses casos, entre outros como obrigá-la a fazer cenas de sexo com cachorro no filme “Dog fucker” (Dogarama, 1971), foram revelados em sua terceira autobiografia, e primeira a não ser escrita com uma arma apontada, “Ordeal” (1980). Além da violência, a atriz conta que Chuck usava da hipnose para exercer controle sobre ela. Talvez impulsionada pela repulsa que desenvolveu contra a indústria do gênero — muito ligada à máfia — e aberta à visão feminista combatente sobre os filmes, Linda tornou-se ativista contra a pornografia, da qual combateu até sua morte, em 2002, num acidente de carro.

A ascensão da estrela Lovelace e seu relacionamento com Chuck parece ser a única preocupação em “Lovelace” (em cartaz nos cinemas do Recife), filme de Rob Epstein e Jeffrey Friedman em cartaz, com Amanda Seyfried no papel princial. Há apenas uma breve passagem de Linda como ativista, assim como não são mencionadas as contradições do momento sociocultural pós-guerra.

Amanda Seyfried como Linda Lovelace. Foto: divulgação

Censura, marginalização e a “era de ouro” pornô

Em 1968, o governo norte-americano estabeleceu que a pornografia era prejudicial e nociva. A repressão e o pudor ganharam forças quando Richard Nixon havia sido reeleito. Em termos de linguagem sexual, a tríade de “porno chic” formada por “Garganta”, “Atrás da porta verde” e “O diabo na carne de Miss Jones” revolucionou o “sexo em tela”: à época, o máximo que se permitia eram filmes de sexo com caráter educativo. No documentário “Inside Deep Throat”, Linda Williams, professora de estudos fílmicos na Universidade da Califórnia, lembra que era a primeira vez que o sexo oral se tornava interessante em filmes pornográficos heterossexuais.

Para Fernanda Capibaribe, doutora em Comunicação (UFPE) e mestre em Cultura e Sociedade, é preciso repensar a representação do sexo como expressão velada: “Há um princípio quando tratamos dessa pornografia produzida no “submundo”, que é o lugar do obsceno associado ao sexo mesmo antes de se pensar numa produção audiovisual com pornografia. Isso significa manter o sexo e suas representações fora do domínio público, apesar da grande procura por representações do sexo e o seu consumo. É a grande contradição, porque é atrativo, mas não pode vir à cena publicamente”.

Foram principalmente esses filmes que fizeram o início dos anos 1970 serem um fenômeno e a “era de ouro” dos pornôs. “Apesar de serem realizados por homens, e mesmo com a série de questões que envolvem os bastidores, são filmes cujo mote é o prazer feminino. São neles também que encontramos, pela primeira vez, certas imagens e recursos visuais e de edição que seriam replicados em outras produções”, diz Guilherme Gatis, autor da dissertação de mestrado em comunicação pela UFPE “Pornô amador — a busca do prazer real na internet”.

“Mas acredito que a questão da coisificação feminina e as construções narrativas e performáticas que transformam o gênero pornográfico num exercício misógino e machista, que ocorre no início dos anos 1980 com a adoção do vídeo e a consequente produção em série do pornô”, opina Gatis. As décadas também criaram uma rixa entre movimentos feministas em relação à existência da pornografia. Ainda hoje, há muitos artigos atuais em defesa da censura do pornô, como da escritora norte-americana Andrea Dworkin.

DECADÊNCIA — A carreira de Linda entrou em decadência quando ela decidiu migrar de filmes pornôs pesados para produções mais leves, incluindo “Garganta Profunda 2” e “Linda Lovelace para Presidente”, ambos fracassos de bilheteria.

SAÚDE — A atriz tinha diversos problemas de saúde, incluindo complicações com as suas injeções de silicone, que lhe causaram inchaço nos seios.

Pornografia sob ótica feminina e feminista

foto: divulgação/Mireya de Segarra

“Goste ou não, vivemos hoje numa sociedade saturada pela pornografia. Há material pornográfico por toda internet e mídia. O pornô saiu do armário. Nesse ambiente, é muito importante que mulheres se aproximem da crítica à pornografia, analisando constantemente e questionando os valores transmitidos”. O trecho extraído do artigo “Good porn manifesto”, disponível (em inglês) no Good Reads, é de Erika Lust, sueca radicada em Barcelona, diretora dos filmes pornográficos assinados pela “Lust films”.

Erika é uma das diretoras que dá força a uma tendência que surgiu, muito timidamente, nos anos 1980 com os filmes da diretora norte-americana Candida Royalle, produtora da “Femme productions”: a dos filmes pornográficos sob uma ótica feminina e, antes de tudo, feminista. O que implica dizer que os personagens e sujeitos que protagonizam cenas de sexo explícito (“hardcore porn”) recebem subjetivação através de um roteiro coerente.

A internet não só facilitou o acesso, como trouxe outros elementos e narrativas em filmes — e à própria pornografia de modo geral — que se opunham ao mainstream. Entre eles, estão os “alt-porns” e os “new wave porn” que, além do cuidado estético, trazem mulheres e homens mais distantes dos estereótipos hiperbólicos. “Sem dúvida, muitos ajudaram a construir um imaginário machista da sexualidade a partir dessas representações do sexo ligadas ao mainstream. Só que agora existem outros tipos endereçados a outros sujeitos. Sim, os sujeitos ‘comuns’ da pornografia amadora, os homossexuais, bissexuais, os sujeitos transgêneros de muitos tipos, aqueles que representam uma pornografia étnica e os sujeitos-mulher na recente pornografia feminista”, analisa Fernanda.

“Esses movimentos contribuem para que nos afastemos cada vez mais de uma cultura do sexo como obsceno, aproximando-nos da cultura do sexo “em cena”, tal como Linda Williams, pesquisadora de pornografia, vai chamar. Ou seja, para uma forma de mostrar o sexo sem tantos tabus ou sem estar associado a algo sujo e que deve ser feito escondido, velado. Acredito que o pontapé inicial para essa mudança já foi dado. Talvez seja uma questão de (pouco) tempo”, conclui.


*matéria publicada no caderno Programa, da Folha de Pernambuco