Sobre o tempo do afeto
[24/01/14]

Duas personagens entrecruzam experiências e lembranças no jogo cênico humano que forma “A primeira vista”
O ambiente é mínimo, assim como as personagens e seus diálogos. No palco, somente duas jovens, interpretadas por Drica Moraes e Mariana Lima, sem citar seus nomes e idades, deslocam-se entre memórias de suas juventudes, desde momentos em que se conheciam e reconheciam a mesma admiração musical até momentos mais avançados, sem localizar o tempo presente. Com direção de Enrique Diaz, baseado em texto do autor e diretor canadense Daniel McIvor, a peça “A primeira vista” estreia no Recife, pelo 20º Janeiro de Grandes Espetáculos, hoje, às 21h, no Teatro de Santa Isabel e continua até domingo (26).
Em turnê por dois anos, a peça se assemelha de algum modo com “In on it”, montagem anterior de Enrique para texto também de McIvor. Originalmente “A Beautiful View”, adaptou-se para “A primeira vista” para evitar certa pretensão poética: é delicada e divertida somente como a simplicidade, a banalidade e a falta. Esta última, presente até no título sem crase, é o que conduz, paradoxalmente, o andamento do espetáculo.
“O que me atraiu não foi nem a personagem, mas o jogo cênico que faríamos. Além do desejo de trabalhar com a Drica (é a primeira vez que elas atuam juntas) e o Enrique”, explica Mariana sobre a relação de amizade entre as atrizes dentro e fora do palco e com o diretor, seu marido, “Quando você trata desses temas e seus parceiros são parceiros de vida é mais natural, todos esses anos juntos contribuem para levantar um imaginário da peça, um lugar concreto”, define Drica.
Sobre o estilo da montagem, do qual Enrique procura ser fiel ao de Daniel, Drica o põe como um “jeito de escrever moderno, que não parece teatro, parece vida”. Mariana diz que a quarta parede é quase inexistente “É um espetáculo que troca muito com a plateia e divide experiências. A gente olha nos olhos das pessoas e elas sentem empatia direta com os personagens”.
“As personagens trafegam pelos momentos de ebulição do ser humano, quando a vida te atravessa e te faz ou levá-la ou ser levado por ela, independente das escolhas”, diz Drica sobre o tempo das personagens. Estas, que começam adolescentes, decididas a montar uma banda de rock ao som de Le Tigre durante um show, relembram quando a montaram e usaram o ukelele, que possui som delicado, como instrumento principal “É engraçado, porque não faz sentido”, ri a atriz.
Serviço
A Primeira Vista
Onde: Teatro de Santa Isabel
Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia)
TURNÊ — Em cartaz por dois anos, “A primeira vista” segue de Recife para Curitiba, Belo Horizonte, Brasília e São Paulo. No ano passado, Drica Moraes indicada ao Prêmio Shell 2013 na categoria melhor atriz pela peça.
*matéria publicada no caderno Programa, da Folha de Pernambuco