Traços que inspiram

[30/03/14]

foto: divulgação/paola alfamor

A técnica da tatuagem do ponto a ponto (“hand poked”) pode sugerir mais do que a impresão da arte no corpo. Com origem nas Sak Yant Tattoo, Tahiti Tattoo, Moko Tattoo, práticas ritualísticas em países asiáticos inspiradas nos desenhos Yantra, na Índia, as imagens e o processo de se tatuar denotam um caráter espiritual. Para Paola Alfamor, 24, artista nômade polimorma, a tatuagem (e a arte sobretudo) é uma espécie de portal, motivo pelo qual apelidou de “tatuagem transcendental”.

A tatuadora esteve em Pernambuco para a exposição “Delas”, na Casa do Cachorro Preto, até a última sexta (28) e seguiu para Paraíba. Sobre a arte como portal, Paola explica que sua crença é no despertar: “Meu objetivo é acender algo na pessoa que ela percebe que sempre foi dela. Nunca faço algo que não gosto, mas as pessoas percebem minha linha”.

foto: divulgação/paola alfamor

Aqui, tatuou principalmente na casa de amigos em Campo Grande e Olinda, mas a escolha do lugar é, na medida do possível, livre. “Gosto de lugares abertos, mas só quando é uma coisa rápida. Já tatuei em montanha, mas foi algo de 20 minutos. Todo meu material é descartável, bem cuidadinho, e eu observo se o lugar é adequado. Também sou reikeana, então sempre ponho uma energia de que nada vai acontecer”.

Desenhista desde pequena, seu interesse real na pele surgiu há cerca de três anos e meio. Aspirante a viajante, foi em Porto Alegre que a gaúcha escutou da amiga técnicas vindas da Índia que utilizam como suporte para agulha um cristal de quartzo. “O cristal tem essa propriedade de cura, que harmoniza os chakras, ativa os fluxos energéticos positivos e transmuta as negativas”, explica a artista, “Fiquei admirada. Achava mecânico isso do estúdio, com uma cara de clínica. Muitos daqui me disseram ‘nossa, meditei como nunca’. E meu trabalho é isso: marcar as pessoas, então eu quero que elas estejam presentes e eu nunca me desligo delas. Há uma troca, não tem como não criar uma relação”.

LIVRO — Adiante, Paola volta para Porto Alegre para terminar livro com nove desenhos em sequência, feito artesanalmente pela editora Contorno (PR). “É uma história pequena e sem palavras. Não tem nome, mas se tivesse, seria ‘Portal’, por ser bem aberta, que mexe com o sensorial de cada um”.

*matéria publicada no suplemento Revista da Folha, da Folha de Pernambuco