Um ano acelerado para o Bongar
[17/03/14]

O Bongar começou o ano de 2014 em ritmo intenso — e não irá parar. Depois do lançamento do primeiro DVD, “Festa de Terreiro”, e da apresentação na Noite dos Tambores Silenciosos, quando homenagearam o centenário de Mãe Biu (Iyalorixá, prestigiada mãe de santo da Nação Xambá, em Olinda), outros projetos virão, incluindo gravação do novo disco “Samba de Gira”, que inicia este mês. O álbum tem produção de Beto Villares e co-produção de Juliano Holanda, e lançamento planejado para este ano, possivelmente para coincidir com o Kipupa Malunguinho, a ser realizado em 21 de setembro.
Cultuada no Kipupa Malunguinho, a Jurema, dizem, foi a primeira religião do País. Dessa tradição religiosa dos índios, primeiros habitantes desta terra, nasceu o sincretismo brasileiro afro-ameríndio, cuja presença ou não da jurema (árvore abundante em Pernambuco e na Paraíba) como elemento sagrado do culto é a principal diferença entre as práticas de umbanda e do catimbó. E é nesta linha de religiosidade que o Bongar pretende mergulhar em “Samba de Gira”, que terá três ambientes sonoros (o terreiro, o estúdio e o Teatro Hermilo Borba Filho) e participações de Siba, Lirinha, Chico César, Silvério Pessoa, Maciel Salú, Adiel Luna, Mestre Bule Bule, além de uma cantora ainda não divulgada.
Guitinho da Xambá, vocalista do grupo, relata em entrevista a experiência com Beto Villares (produziu, entre outros, trilha de “Abril despedaçado” discos de Céu, Siba, Mestre Ambrósio) e Buguinha Dub (Nação Zumbi), que trabalha como técnico de som. “A ideia é a diferenciação de sons e que os ouvintes percebam as atmosferas diferentes, e possam fazer uma leitura perceptiva de cada ambiente. Nossa identidade sonora está nos terreiros. A gente não consegue ouvir o som no estúdio como ouvimos no terreiro da nossa família, porque ‘refina’ demais, tira a crueza. Então a gente quer trazer esse ambiente e levar a sonoridade pro cinema”, diz, “E o fato de Beto, que é referência internacional em trilhas sonoras, trabalhar com o Bongar só afirma o potencial e a admiração que as pessoas têm pela cultura popular”.
Também este mês, o Bongar dá continuidade a um álbum com o DJ Maga Bo, que deve dar uma pegada mais sound system ao grupo. “Foi engraçado como nos conhecemos. Em 2012, eu estava em casa lendo uma matéria sobre o Rec Beat e vi uma fala dele, que estava em Pernambuco pela primeira vez e queria conhecer o Bongar e a comunidade Xambá. Então fui atrás dele e nos encontramos após o Carnaval”, lembra Guitinho, “Continuamos a gravação agora e tá sendo um disco bem bonito. É uma experiência bem nova, nos direcionando pra um público que a gente não tem contato”.
Durante o lançamento do DVD “Festa de Terreiro”, o Bongar lançou a campanha “Novo Ilê Xambá”, para revitalização do Terreiro Portão do Gelo, em Olinda, onde fica a Nação Xambá. “Se Deus quiser, em abril a gente começa a dar as primeiras ações de revitalização. Vamos contar com ajuda de amigos, músicos, artistas, pra fazerem alguma ação na própria comunidade para que as doações sejam divulgadas. Em breve, vamos divulgar agenda com artistas fazendo intevenção cultural. Será bem especial”, afirma Guitinho.
O lançamento do álbum “Samba de Gira”, bem como uma turnê nacional, foi aprovado pelo Funcultura, assim como o programa “Tem Preto na Tela”, que irá ao ar pela TVU no segundo semestre, e o livro de fotografia “Velha a minha história, novo meu olhar — Centenário de nascimento de Mãe Biu da Xambá (1914–2014)”, de Guitinho. Em julho, o Bongar deve fazer uma turnê na Europa, com locais não definidos ainda. Depois de uma apresentação em Cabo Verde, no ano passado, Guitinho expressa o desejo de fazer circuito na África: “Existe um direcionamento de músicos e bandas de Pernambuco pra eixos tradicionais Europa e América do Norte e queremos circular onde a musica é muito forte e há grandes produtores, que é o mercado africano. Esperamos que a gente faça em 2015”.
PROGRAMA — O “Tem Preto na Tela” é um projeto que chega à sua terceira etapa, como programa a ser exibido na TVU este ano (gravações terminam em junho). O projeto começou na comunidade Xambá e teve na primeira fase a exibição de filmes e debates; na segunda, formação, com o ensino do manuseio dos equipamentos e construção de roteiro.
*matéria publicada no caderno Programa, da Folha de Pernambuco