Uma síntese plural da Gogol Bordello

[03/12/13]

foto: divulgação

Apesar da recepção quase morna durante o Rock in Rio neste ano, a Gogol Bordello já rendeu belos momentos com sua música punk-cigana (“gypsy punk”) no Brasil. No palco do Rec-Beat, no carnaval de 2009, um sujeito vestido com uma camisa de Pernambuco gritava, com o sotaque ucraniano nos erres, os selvagens refrões de “new history of — tarararara…”.

Eugene Hütz havia marcado o show da Gogol Bordello, e ele próprio, como uma das mais fervorosas perfomances recentemente naquele palco, além de acentuar o hype em torno do “Super Taranta!” (2007), quarto álbum da banda. Talvez fosse familiar a um percentual menor das pessoas ali presentes a música punk-cigana (gypsy punk) de Eugene de sua apresentação no ano anterior, com DJ Dolores — ou até, quem sabe, da atuação em “Filth and Wisdom” (2008), filme dirigido por Madonna do qual foi protagonista.

Em 2010, com o álbum “Trans-continental Hustle”, percebe-se que a troca fora efetiva na relação do país com Eugene, notável em “Uma menina, uma cigana” e “In the meantime in Pernambuco”, — assim como fora em diversos continentes por que passara o nômade meio-cigano e banda composta pela diversidade étnica de seus músicos, presente principalmente no nome do álbum e na “Immigraniada”.

Essa marca da diversidade cultural, apelo infalível da banda, talvez fizesse com que este novo álbum, “Pura vida conspiracy”, com produção de Andrew Scheps (The Mars Volta), soasse mais do mesmo que a banda fizera nos últimos anos durante primeira audição, o que fica claro na primeira faixa “We rise again” — o que não desmereceria o álbum, ainda assim. Trata-se mais de uma espécie de síntese, que Hütz considera como “o melhor trabalho feito” e o que mais reflete a banda sem pátria.

Aí entra a “conspiração” deste álbum que, como os outros, mescla culturas e línguas: na sutileza das músicas menos agitadas (nos parâmetros da Gogol, claro), a incorporação dos antigos elementos. Entre uma briga entre violinos, acordeões, guitarras e baterias exaltadas que dão ritmo ao hardcore e ska, ritmos menos inflamados como a cumbia, a polca — como “Malandrino” — e a fanfarra se envolvem na música gypsy.

Está tudo aqui: “Dig deep enough” começa calma para anteceder o estrondo de seu refrão; “It is the way you name your ship” poderia ser brindada com galões de rum e tapa-olhos; “My gypsy auto pilot”, ótima faixa que remonta as conhecidas melodias ascendentes, e assim segue “John the conqueror”, baseada numa lenda folclórica. Ao fim, quem diria, somente violão e voz em “We shall sail” — para introduzir, após alguns minutos de silêncio, o metal “Jealous sister”. Ainda não chega a ser a “super-teoria” da Gogol Bordello, mas ficamos com uma boa síntese, até então.


*resenha publicada no caderno Programa, da Folha de Pernambuco