Youtuber mirim dá recado aos fiscais dos padrões de gênero: “meu cabelo continua crescendo e eu ainda não me tornei uma menina”

O gênero não é natural, mas performado por todas as pessoas. É a espontaneidade que forma a personalidade de uma pessoa, aquilo que lhe é mais essencial e fixo. E se tem algo que definitivamente não é normal é a imposição de um modelo de gênero dominante — chamamos isso de heteronormatividade. Ou, noutras palavras, “coisa de menino” e “coisa de menina”.

Em tempos de discussões de gênero em alta, algumas pessoas podem até já ter ouvido algo, mas achar que essas discussões fazem parte de um mundo e futuro distante. Até olhar pro próprio presente e observar que crianças — que não precisam performar um modelo de gênero para atrair as pessoas que elas amam — , só querem fazer o que gostam e se cercar de pessoas que amam. Criar suas próprias narrativas e entedimentos lúdicos do mundo, sem que para isso precisem interferir na vida e no corpo de outra pessoa. O gênero, no fim das contas, é uma brincadeira que fazemos; algumas pessoas percebem isso, outras não.

Foi a partir da discussão com a mãe sobre o próprio cabelo, que Natan, conhecido como Mackaco (“apelido que ganhei do meu pai desde novo, porque adorava subir nos galhos”), 9 anos, resolve explicar num vídeo de seu novo canal no Youtube, homônimo ao seu apelido, que nenhum objeto, brincadeira, cabelo e estilo pode por si só ter gênero.

No apartamento em Recife, a mãe de Natan, Gabriela Machado, é quem explica a relação do filho com seu cabelo. “Ele se sente mais confortável com cabelo grande. Quando ele era pequenininho, ele tinha cabelo grande. A gente saía com ele e ele até era bem meninino, com ‘roupas de menino’. Mas por ter cabelo grande, todo mundo olhava pra ele e dizia ‘que menina linda!’. Nem por causa disso, mas antes de fazer dois anos, ele cortou bem curtinho”. “E ficou horrível!”, interrompe Natan, gerando risos na sala. O pai, Bal Santiago, complementa: “Agora tá um charme, elegante. Só na sedução”.

Para Natan, os desenhos favoritos são Gumball, Hora da Aventura e Apenas um Show. As brincadeiras são pega-pega e o brinquedo que mais usa é bola. “Às vezes, ele também assiste Barbie”, lembra o pai (“às vezes”, reforça Natan). Também às vezes medita com o pai. Outro hobbie é fazer experimentações alquimistas ou sensoriais, como no vídeo “Mackaco,é hora da feitiçaria”; ele pretende gravar outras experimentações do tipo.

Foto reprodução / Marceline e Princesa Jujuba, da Hora da Aventura, já foram namoradas

Steven Universe, outro desenho, também é mencionado: “É interessante que os desenhos de hoje lidem com muita naturalidade com a diversidade. Em Steven Universe, as Gems não têm um gênero exato e cuidam do Steven, formam uma família. Em A hora da Aventura, Marceline e Jujuba foram namoradas”, lembra Bal. “E o Natan sempre foi muito de boa com isso. Sabe que a madrinha é lésbica, casada com outra mulher e não faz diferença”. “A gente conversa com ele sobre tudo. Ele sabe que muita gente sofre só porque não consegue ficar com outras pessoas do mesmo sexo”, completa Gabriela.

Foto reprodução / Steven, Garnet, Ametista e Pérola são as Crystal Gems, do desenho Steven Universe.

“Sabor menina”

Foto reprodução / Legenda: a parceria entre Barbie e Hot Wheels já estampou também os presentes do McLanche Feliz e Kinder Ovo

Na lógica sexista, “coisas de menina” significa algo ruim. Gabriela lembra alguns episódios que passou com sua família. “Minha irmã tem uma filha e um filho. A menina é bem maloqueira, ela acha o máximo vestir as roupas dos meninos. E a gente ri,brinca, é normal. Mas já perguntei pra minha irmã: se ele quisesse vestir as roupas dela seria normal? E a resposta dela foi: óbvio que não”, conta.

“Muita gente acaba destilando preconceito de uma forma até inocente. Minha tia, por exemplo, foi comprar suco pra ele que tinha estampas do Hot Wheels e da Barbie. Aí chegou em casa dizendo que não comprou porque não tinha de menino, só de menina (O pai de Natan brinca na hora: “sabor menina”). Natan respondeu logo: ‘E eu vou virar uma Barbie se tomar o da Barbie? Daí ela entendeu logo ‘Então quer dizer que eu podia comprar o da Barbie?’, é óbvio que podia…”, critica Gabriela. “Parece natural o preconceito porque esses padrões são ensinados por pais e mães aos filhos e filhas”

Foto: Thaís Cavalcanti | família de Natan

Bal lembra que já foi repreendido por um amigo do filho. “Eu costumava beijar Natan na boca. E aí um amigo dele falou: ‘é óbvio que vocês vão ter que parar com isso em algum momento, porque senão ele vai achar que é normal fazer isso’. Mas por que não seria normal?”

Numa lógica machista, um homem demonstrar muito carinho não é normal. Mas como diria Natan, “com tanta proibição, as pessoas só deixam de ser o que elas são de verdade”. Uma boa experimentação é misturar “sabor menina” e “sabor menino” sempre que possível e perceber que o gosto da fruta é artificial em cada caixinha.

  • Texto publicado originalmente no site Best of Web em julho de 2016