Extinção dos canudinhos de plástico pode comprometer acessibilidade dos deficientes físicos

Alternativas sustentáveis ainda não garantem a melhor mobilidade para esse público

Por Thaís Mota e Emilia Jurach

Foto: Emilia Jurach

A guerra contra os canudinhos de plástico foi declarada ao redor do mundo e está cada vez mais próxima de desembarcar em Curitiba. Um projeto de lei que envolve essa polêmica já está em trâmite na capital, entretanto, ele não deixa alternativas às necessidades de uma minoria específica usuária do canudo.

A ideia de diminuir o uso do canudo por causas ambientais é válida e, para isso, inúmeras alternativas foram criadas para substituí-lo, como os canudos biodegradáveis, de silicone, aço, comestíveis, entre outros. Mas para muitas pessoas com deficiência, o canudinho tradicional de plástico ainda é a melhor solução.


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A blogueira Marina Batista faz parte da minoria que utiliza e precisa do canudo plástico. Ela se manifestou nas redes sociais e levantou um lado esquecido da causa, diante de tanta proibição moral sobre o uso do utensílio.

“As pessoas que comemoram o fim do canudo plástico, que é dobrável e não machuca, nunca tentaram dar nada pra um PcD (Pessoa com Deficiência) como eu beber”.

Nas declarações via twitter, a blogueira foi criticada por alguns internautas e, quando questionada a respeito dos canudos biodegradáveis, ela contestou dizendo que “não funcionam, pois dissolvem, transferem sabor e são de base alergênica. Eu sou super a favor de um biodegradável que funcione de fato. Ao invés de incentivar a modernização da indústria e conscientização de descarte, é mais fácil banir”.

Além da blogueira, outras pessoas se identificam com a situação exposta na rede. É o caso da Bruna Bisol, estudante de 19 anos, que possui paralisia cerebral e faz uso dos canudos com frequência.

Segundo a terapeuta ocupacional Ingrid Woitas, são poucos os lugares que estão preparados para receber pessoas com deficiência. “O estabelecimento precisa ter adaptação no tamanho da mesa, barras no banheiro e espaço para a pessoa se locomover com independência”, explica. Na questão dos canudos, Ingrid pontua que o impacto será maior para pessoas com os membros superiores afetados.

Paralisação dos canudos plásticos não deve afetar vendas nas distribuidoras

Quando o assunto chega no lado econômico da situação, pouca coisa muda. O representante da distribuidora de produtos alimentícios Concorde, Lucas de Matos, conta que o prejuízo com a paralisação das vendas dos canudos de plástico não seria grande, tendo que os biodegradáveis saem apenas R$10 mais caros, quase o mesmo preço que os outros.

De acordo com ele, os estoques de canudinhos plásticos ainda estão ativos, entretanto, as marcas já estão enviando para a distribuidora os biodegradáveis, que são de maior procura do público jovem.

“ Quem mais procura as alternativas biodegradáveis são os jovens, que já estão mais conscientes sobre o impacto no meio ambiente, já os clientes mais antigos preferem os canudos tradicionais”, afirma.

Curitiba está na rota da lei contra os canudos plásticos

A Sanepar indicou que a coleta do lixo na temporada de verão deste ano recolheu 1,6 mil toneladas de lixo em todo o litoral paranaense, incluindo praias e áreas urbanas. Alguns países e várias cidades dos Estados Unidos, como Seattle, Miami e Malibu já aboliram o uso dos canudos plásticos em bares e restaurantes. No Brasil, o Rio de Janeiro foi a primeira cidade a aprovar a lei contra o vilão de plástico e Curitiba está na rota.

O Projeto de Lei Ordinária, criado pela Vereadora Maria Letícia Fagundes, do Partido Verde (PV), foi protocolado em 8 de junho de 2018, e no seu Artigo 1° consta que:

“ Ficam os restaurantes, lanchonetes, bares e similares e os vendedores ambulantes do Município de Curitiba obrigados a usar e fornecer a seus clientes apenas canudo comestível e/ou de papel biodegradável, individualmente e hermeticamente embalados com material biodegradável”.

Confira um trecho da entrevista em que a Vereadora debate este e outros pontos do Projeto de Lei.

Apesar da vida útil do objeto ter cerca de 10 minutos, o tempo que se toma uma bebida, eles demoram mais de cem anos para se decompor no meio ambiente. Esses canudinhos utilizados atualmente são feitos de material não-biodegradáveis e, além de contaminarem os mares e, consequentemente, toda a cadeia marinha, também afetam a saúde humana, pois contém, em sua fabricação, produtos químicos nocivos.

De acordo com estimativas da Organização Mundial das Nações Unidas (ONU), treze milhões de toneladas de lixo plástico são gerados todos os anos, além de ser o 7° item mais coletado nos oceanos no ano de 2017, segundo pesquisa da ONG Ocean Conservancy, sediada nos Estados Unidos.

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