Por todas as vezes que glamourizei a minha raiva
jam senusn
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Eu sinto muita raiva também. Eu posso dizer até que não sei nem me sentir triste direito, a tristeza e a frustração geralmente se transformam em raiva em questão de minutos. Fui lendo seu texto e me identificando bastante, principalmente com a parte de se apegar à raiva como uma identidade, já que ela foge dos padrões femininos esperados. Sou bem pequena, tenho aparência frágil, então a raiva em mim parece muito fora do lugar para quem me olha de longe, sabe? E eu sempre adorei isso, porque eu odeio ser vista como um bibelô. Melhor ser um bibelô raivoso como um pinscher que um bibelô puro e simples.

Só que a raiva é um sentimento difícil de manejar, né? Se a gente engole, a gente cultiva gastrite. Se a gente expõe, corre risco de machucar todo mundo ao redor. Se a gente deixa ela se manifestar, mas adiciona uns acessórios para ela ficar menos feia, parece cinismo. Acho que o único caminho saudável para raiva é transformá-la em motor para alguma coisa e isso é desafiador, porque nem sempre a gente entende que alguns resultados dessa transformação vão continuar sendo um tiro no pé.

Uma coisa que me fez apaixonar pelo livro “Meus desacontecimentos” da Eliane Brum foi o jeito dela falar sobre raiva. Me identifiquei demais e acho que você deveria arriscar a leitura. Uma citação do livro sobre:

“Hoje, ao lançar meus anzóis no lago nebuloso do passado, em busca de um mapa cujo único destino sou eu, percebo que escrever me salvou de tantas maneiras e também desta. Desde pequena, eu tenho muita raiva — e quase nenhuma resignação. A reportagem me deu a chance de causar incêndios sem fogo e espernear contra as injustiças do mundo sem ir para a cadeia. Escrevo para não morrer, mas escrevo também para não matar.”