Ensaio sobre a Loucura

O dia em que o silêncio falou mais alto (ou nem tanto)

Já faz um tempo que eu não digito mais. Tem anos que eu não faço isso: insistir num texto a ponto de parar tudo (que tudo? o que é tudo?) pra parir as palavras e transformar ideias em verbo. Sei bem do poder de cura e revolução contido nessas decisões. Nessa página virtual em branco, cada palavra é um mundo, quiçá um Universo novo a ser descoberto, explorado e incorporado ao texto e à visão da ideia apresentada a você, que está aí lendo.

Mesmo assim, faz tempo que não publico em redes sociais textos de minha autoria: guardo tudo em cadernos e páginas e folhas soltas, como melhor me convir. Assumidamente abri mão do textão como forma de expressão em nome de uma paz interior que eu nem sabia poder existir.

Nesse processo, descobri que o silêncio é uma arma poderosa. Ele corta as dúvidas ao meio como faca afiada e transforma pensamentos fulgazes em reflexões íntimas, tão profundas que nenhum debate é capaz de recriá-las. Manter-me calada diante da disputa de egos e vozes desesperadas pra ver quem vai dar o próximo close certo e levar pra casa o troféu de lacre do ano foi certamente a melhor escolha durante esse tempo. O silêncio me protegeu do meu ego e também o manteve seguro diante das ilusões do dia-a-dia.

Permitiu que eu enxergasse o valor do sentimento que a gente guarda pra si em forma de livre pensamento e aprendizado – não por medo do julgamento alheio ou por puro egoísmo, mas por saber o tanto que essas palavras ainda podiam ser lapidadas até se tornarem, de fato, fieis à essência e a mim.

A palavra escrita na tela, digitada, não carrega a mesma energia da que surge no papel. A palavra caligráfica tem som – um som lindo, devo dizer – tem força e tem vida. Tem o poder da transformação que transborda e toma forma através do corpo e do movimento conjunto à ferramenta que ali houver pra dar luz ao verbo na forma de texto escrito à mão.

Já o esforço que o dedo faz pra tocar na tela e dar origem às palavras digitadas na era virtual é praticamente nulo. Uma experiência amortecida, anestesiada, mórbida e diluída pelo excesso de estímulos que a tecnologia provoca no organismo humano. Mas o silêncio desmonta essa estrutura.

Desarma a gente e desfaz as armadilhas do ego, abrindo o caminho e trazendo os Mestres com os quais merecemos aprender. O silenciar mostra a quem devemos reverenciar – e, no fim das contas, a resposta é bem clara: a nós mesmos.

A verdade da gente clama por voz desesperadamente enquanto fazemos tudo aquilo que nos (dis)trai, como se não houvesse tempo suficiente pra nos ouvir. Mas essa voz não desiste. Pelo contrário: ela fala cada vez mais alto – e, se for preciso, ela fala através dos outros também. Acredite: eu já passei por isso. Já escutei de tanta gente que já tinha dado o tempo do silêncio se calar e agora era hora de bradar bem alto as verdades que em mim habitam, sempre num tom amoroso, praticamente um carinho na alma. Um pedido de libertação, uma nota de rodapé que ocupa a página inteira lembrando que viver sem criar, nem agir, nem expressar, é viver sem propósito. E escrever, pra mim, é a forma mais simples de resgatar e descobrir o sentido de tudo (sim, aquele tudo lá de cima mesmo).

Viver pra isso é um sonho e também uma promessa de realidade, tão distante quanto nossas pernas, braços e coração puderem alcançar. Os meus me trouxeram até aqui.

E os seus, te levarão pra onde?

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