A fênix do Juvevê

Ou quando uma escorpiana atinge o ponto de ebulição

Ilustração de Apollonia Saintclair

A lua enchia o céu daquela noite de sábado, quando toda atenção se voltou para as paredes roxas do casarão do outro lado da rua. Uma dezena de jovens em roupas desbotadas, fumando e falando alto, se amontoavam junto a porta do lugar; de onde o segurança franzia a testa para qualquer movimento brusco. Nada capaz de ofuscar o efeito sedutor do som dos trópicos que escapava pelas frestas.

Um cheiro forte de verde pesava sobre os ombros da DJ responsável pelo ritmo hipnótico pulsando das caixas de som. Acostumada a abrir os trabalhos, era a primeira vez que ela tocava para uma pista cheia de gente e disposição. Naquele instante, dentro da casa roxa, o mundo obedecia a regras diferentes, e até o tempo dançava sem tirar os pés do chão.

Já era domingo quando ela cruzou a pista pela primeira vez. O piso vibrava com os tambores e as luzes coreografavam sobre corpos semi-nus. Os desconhecidos se conheciam. Os estranhos se assemelhavam. Um coro de corpos acompanhava em uníssono a maestria das curvas que ela desenhava no ar espalhando a densa fumaça de gelo seco. E um depois do outro, eles eram abatidos por seus gestos oblíquos.

Da cabine, a DJ oferecia à moça matéria-prima para a sua cena; e uma platéia de meia-dúzia-de-gatos-pingados começava a se formar ao redor das duas. A música tribal parecia ter evocado uma divindade que, agora, regia a orquestra de corpos suplicando sua atenção. Copos ao alto. Um brinde a Baco. Um gole pro santo e Jurupinga pra dentro.

Com as costas da mão ela seca o líquido que escorreu pelos cantos da boca. Sacode a cabeça. Bate o cabelo. E desce até o chão. Volátil. Desliza debaixo até em cima, pra então descer de novo. Até o chão. Si-nu-osa. O mar em ressaca quebrando nos seus quadris. Ela é um fenômeno da natureza prestes a acontecer. Ela: um palindromo não por acaso. Mergulhou em direção às duas bocas que se abriam sob a sua em busca de novas perguntas.

Ela é toda explicação para furacões receberem nomes próprios de mulheres. Ela fez uma promessa: nunca acordar a mesma. Mas a falsa modéstia vai fazê-la dizer que é tudo culpa d’esse eterno morrer para renascer, típico daquelas que nasceram sob o sol em escorpião.

Ela é a musa da última estação. Gestada pelo som úmido dos ritmos tropicais, e parida mergulho após mergulho em bocas estrangeiras. E é claro que algumas terminariam gravemente feridas. Porque a moça ainda não reconhece o próprio poder. Mas ela tem a benção das deusas. Ela quer se encontrar. Requer sacrifício: humano, por vezes. Ela não pode evitar.

O sol já começava seu turno quando ela cruzou a pista no sentido contrário. Quem olhava de longe notava algo diferente, embora não pudesse precisar o quê. E quem se aproximava não conseguia manter os olhos abertos por muito tempo sem se queimar. Tomou um gole de água. Passou a mão úmida sobre a nuca e encarou o reflexo no espelho. As cinzas já tinham se convertido em cor quando ela acordou no Juvevê.

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