Com que roupa eu vou? Para o Golpe? Vai de primeira-dama!

Das artimanhas discursivas da manutenção de poder e de um golpe que também é direcionado à nós, mulheres.

Nas últimas duas semanas entrou no ar a nova versão brasileira de uma série americana. Após o sucesso da trama trágica-pastelão de The House of Cunha, estreia com sucesso e conquistando o público feminino a polêmica The Good Wife, com versão em português para Seja uma primeira-dama de sucesso. No nosso caso, sem as reviravoltas da versão americana para as primeiras-damas, mas muita para as mulheres de front!

Na semana passada, a matéria intitulada “Bela, recatada e do lar” caiu na boca do país e foi interessante ver várias mulheres aderindo à ironia na postagem de fotos nas quais apareciam quebrando o modelo exaltado pela revista, aquela-que-não-se-pronuncia-o-nome: irreverentes, soltas, livres.

Por outro lado, houve mulher que questionasse: vem cá, suas feminazi radicais cagadoras de regras, por que a mulher não pode ser do lar? Assim vocês se colocam num patamar acima das mulheres que escolheram pelo lar e pela família? Qual o problema de ser bela, recatada e do lar? Houve também mulher dizendo que feminista é tudo feia e que isso devia ser tipo, recalque e pra isso a gente já conhece a fórmula perfeita: “beijinho no ombro para as invejosas de plantão”.

Passamos uma semana digerindo, conversando, reagindo à matéria-suporte-midiático e de construção discursiva pró-Golpe, com intenção clara de depor a nossa presidenta, sempre posta como essa mulher sem carisma, desagradável aos jogos de poder instituídos há anos. Quem é essa mulher? Que Brasil deixou essa mulher chegar em um lugar que não é dela?

Tentamos deixar claro em conversas entre os pares os motivos que fazem colocar no palco das belezas a serem aplaudidas a mulher “bela, recatada e do lar” (também loira, jovem, magra, rica e silenciosa — a fórmula perfeita para a loteria de um bom casamento). O que faz essa mulher ser posta em posição de aplauso justamente no dia seguinte a uma sonora vaia masculina a uma deputada ausente na votação do impeachment por licença maternidade , no dia seguinte aos gritos de “linda!” para algumas deputadas enquanto votavam e ao riso de chacota para outras, no dia seguinte aos cartazes misóginos com “Tchau, querida!” levantados na câmara para a presidenta eleita?

Passada a semana, os jornais brasileiros trazem outra matéria de relevância: o bumbum e a sensualidade da mulher do novo ministro de turismo. Outro modelo de mulher que merece destaque no Brasil, a sra. bumbum ano X, embora essa nem chegue aos pés da “nobreza” da bela quase-primeira-dama.

Mais claro impossível, mulherada! Tá aí nosso lugar de relevância no mundo, aos olhos dos homens de poder e da mídia conservadora do Brasil: vai ser primeira dama, essa carreira de sucesso! Se for bonita e jovem, melhor! Se for uma senhora, cabe bem o recatamento e a lealdade de ficar ao lado do marido caso algum escândalo de “puladinha de cerca” venha à público.

Mas, nunca, jamais ouse ser uma mulher pública e ativa na política, muito menos presidenta!

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