Dia de mulher é dia de revolução

De nós mesmas: a rejeição de definições. Dos outros: a empatia e a proteção.

O “dia da mulher” (8 de Março) é um dia que sempre me inquieta, há muitos anos. Desde criança não entendia muito bem o motivo de ter um dia de mulher, um único dia que parece tentar redimir todo o nosso silenciamento em forma de flor, perfume e bombom. Nesse tempo, quando calhava do dia cair no fim de semana, achava a papagaiada pior ainda, muitas vezes tinha um cara cantando músicas ao vivo, que podia até ser Amélia que era mulher de verdade ou Marina, não pinte esse rosto que eu gosto e que é só meu… para coroar toda a contradição que permeia o dia.

Quando comecei a crescer e tomar mais formas de mulher no mundo do que as que já tinha adquirido, comecei também a perceber e ouvir que não era o “tipo” de mulher adequado. Foi fácil perceber e assumir uma relação de insatisfação com meu corpo logo cedo, com tanta informação me dizendo o quanto eu não fazia parte do padrão (alguma mulher é capaz de se sentir no tal padrão?) e foi difícil ouvir que eu não era mulher dócil o suficiente para namorar os rapazes da época: sabida demais, brava demais!

O “tipo” de mulher que eu começava a ser no mundo me foi jogado na cara, enfiado goela abaixo, como parece ter acontecido com as Amélias, as Marinas e tantas outras: uma de-finição, com toda finitude que jamais caberia se dar a um ser — mutante por natureza! Acontece que na nossa sociedade existe a máxima que do cavalo dado não se olha os dentes, ainda mais se dado a uma mulher, que historicamente foi colocada à espera da escolha de um homem que lhe desse a redenção de não ser um fardo para a família. De muito bom grado era bom que se aceitasse o “cavalo” dado, o presente-redenção-casamento, que embora “dado” deveria ser conquistado e merecido com o esforço da perfeição.

Muita coisa mudou no decorrer dessa história de ser mulher às custas de muita luta e morte de muitas de nós, mas uma delas me parece a mesma, ao menos da parte que nos contam da há 2016 anos depois de Cristo: somos soterradas por de-finições, que as vezes vêm em forma de presente, de salvação, de carinho… E, por isso, é bom que nós façamos por merecer!

Nunca gostei desse dia triste (8 de Março), principalmente depois de descobrir que, na verdade, o 8 de Março de 1857 foi um dia como tantos outros que ainda vivemos hoje: dia de matar mulher! Dia de silenciar mulher à base de terror! O que era para ser nos tempos de hoje um dia de profunda tristeza pela nossa história, de reflexão e de revolução, foi transformado em um dia de dar presentes e felicitações, para distrair nossa atenção do verdadeiro tema — como se fosse bom demais viver silenciada, de-finida e violentada. Como se fosse motivo de homenagem a nossa docilidade imposta!

Quem de nós mulheres nunca ouviu algum desses adjetivos? Em relação a nós mesmas ou a outras mulheres?

Não conheço uma só mulher, diga-se ela feminista ou não, que não sinta os pesos de ser uma de-finição. Não conheço uma só mulher que não seja adjetivada de forma a marcar sua carga de gênero, nem mesmo quando o adjetivo é dado em forma de de elogio, de homenagem. Mas conheço algumas mulheres que não são consideradas do “tipo” a quem se dá parabéns ou se oferece uma flor no dia 8 de Março e vejo muitas mais dessas por aí a vagar sem nome.

Neste 8 de Março de 2016 que se aproxima eu consigo compreender, aos 31 anos de vida e de de-finições, o que significa um dia como esse ser transformado em um dia de homenagem ou em um único dia em que se reconheça que “opa! mulher é um troço legal”. Compreendo e rejeito! Não quero que imponham um “ser mulher” que não é meu, que me definam, que me adjetivem usando meu gênero como parâmetro de diminuição ou de desequilíbrio.

Por outro lado, aceito o respeito, a empatia, o reconhecimento, a voz e a proteção — proteção não porque somos naturalmente frágeis, mas para que possamos juntas escapar e banir do nosso cotidiano dias como um certo 8 de Março. Que este Dia da Mulher seja como todos os nossos dias desde que nascemos: de carregar bandeira, como disse Adélia Prado, um dia de luta, um dia de revolução, um dia de mulher!

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