A guerra no Rio é um projeto político

Acho que não existe má gestão no Rio de Janeiro. Acho que o que existe são políticos que transportam toneladas de cocaína, outros que são milicianos há décadas e todo mundo sabe, e corporações policiais inteiras que se beneficiam da existência do tráfico. Acho que o que nós vemos aqui no Rio é um projeto político. Se o Rio está assim, é porque alguém lucra com isso. A gestão acontece exatamente da forma que ela foi planejada pra ser.

Esse projeto político que vemos acontecendo aqui depende de um imaginário nacional racista, um imaginário de guerra, que envolve a ideia de que há “bons cidadãos” contra “marginais” que ameaçam a segurança nacional. Os “marginais” são um tipo muito específico de traficante (aquele bem na ponta do processo). Aliás, na verdade, toda a população negra, pobre e favelada é vista como “marginal”, porque não existe negociação quanto a isso por parte dos olhares que vêm de cima. Negro, pobre e favelado é o “perfil” procurado para corresponder à posição da ameaça nacional e ponto final.

Rafael Braga foi preso porque é negro e pobre e, por isso mesmo, é visto como uma ameaça ao Brasil. É visto como uma ameaça porque se pensa que, mesmo que ele não tenha feito nada ainda, é o destino dele fazer porque ele tem um “perfil criminoso” — isso quer dizer que seria o destino dele trazer perdas para o Estado brasileiro e para os “bons cidadãos” que esse Estado deve proteger.

Lembro sempre de uma citação do Cabral que, pra mim, exemplifica todos problemas do Rio. Ele se declarou favorável ao aborto e disse que é porque mulheres em favelas são “fábricas de marginais”. Veja bem: uma fábrica, uma linha de produção de “marginais”, que não deviam nem nascer pra não chegar na rua. As mulheres, na lógica de Cabral, são meio que acessórios, e só são um problema pra cidade na medida em que elas dão à luz os marginais (o que se presume de todo menino nascido em uma favela). Os marginais do imaginário nacional são meninos e não à toa o genocídio no Rio é feito majoritariamente por homens contra homens. Esses “marginais”, como diz a própria palavra, são pessoas que vêm literalmente das margens e ameaçam a predominância de quem está no centro. Muitas das políticas de segurança cariocas são feitas justamente para impedir a chegada dessas pessoas nesse centro — lembra das revistas policiais de pessoas que estavam indo para as praias da zona sul em ônibus vindos da zona norte?

Esse imaginário que enxerga essas pessoas como inimigos da integridade nacional justifica medidas de proteção nacionais, como exércitos enfurnados na Maré. Qual é a diferença entre uma ocupação militar em um país estrangeiro e uma ocupação militar no seu próprio quintal? A diferença é tão somente quem\o que você vê como uma potencial ameaça. O maquinário militar brasileiro se volta contra seus próprios cidadãos, contra aqueles que são “marginais”. São essas as pessoas que supostamente ameaçam a integridade da nação brasileira, como são os imigrantes e “terroristas” nos Estados Unidos e em vários países da Europa (sendo que todo árabe\muçulmano é presumido como um terrorista em potencial).

Nos Estados Unidos, a evocação de uma ameaça nacional (o terrorismo) justificou a suspensão completa de direitos dos presos na prisão de Guantánamo, onde eles não têm sequer o direito formal de defesa e ficam completamente à mercê do Estado norte-americano. Acho que o medo que sentimos com a declaração de guerra feita pelo Extra é que isso vá, de alguma forma, institucionalizar mais as coisas e dar uma justificativa amparada no direito para todas as violações contra as populações nas favelas.

Não dá pra saber o que essa declaração vai fazer daqui pra frente. O que nós sabemos é que essas violações já são cometidas, que nenhuma lei vigora dentro de uma Maré com exército militar, que não existe nenhum tipo de salvaguarda pra ninguém ali. A justificativa pra isso já existe, também: é essa ideia de que todos ali são marginais, ou, senão, marginais em potencial, que vão tacar o terror em quem está ocupando o centro enquanto estiverem vivos (decorre que “bandido bom é bandido morto”). “Marginal” no Brasil, assim como “terrorista” nos Estados Unidos, não tem proteção nenhuma, independente daquilo que esteja escrito na lei.

A gente pode criar mil narrativas diferentes envolvendo guerra e Rio de Janeiro. Podemos dizer que não é guerra porque, séculos atrás, um estrategista militar prussiano que já morreu há muito tempo disse que guerra acontecia apenas entre dois Estados. Podemos dizer que não é guerra porque a ONU define agressão como algo que acontece por parte de um Estado contra a soberania de outro. Podemos dizer que não é guerra porque existe uma nova definição de “guerra assimétrica” que compreende Estados contra grupos armados extra-estatais que visam atacar esse Estado, o que não seria o caso do tráfico. 
Nada disso tá errado.

Mas é verdade, também, que o que se vê e o que se sente no Rio de Janeiro — com todas as violações, com os tanques de guerra, com as torturas, com os desaparecimentos, com a dor e o medo diários , com a construção desses inimigos imaginários — é guerra mesmo.

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