Estremecimento

Eu me lembro bem, na época do cursinho, há 17 anos, eu lia uma revista de esquerda, a "Caros Amigos". Cada reportagem me trazia um estremecimento pelo corpo inteiro, uma grande vontade de me engajar contra ou a favor de alguma coisa. Ao longo desse tempo, me engajei em muitas lutas, mas nunca por muito tempo.

— -

Fui trabalhar em um livraria. Ficava sete horas e meia de pé, sem poder sentar. No primeiro dia de trabalho, quando já haviamos arrumado todos os livros, atendido clientes, e uma pausa natural se fez, eu, naturalmente, sentei-me em uma poltrona por alguns instantes. Logo vieram meus colegas e disseram: levanta! não pode sentar!

Consegui ficar cinco meses no emprego. Minhas pernas doiam diariamente e se enchiam de varizes. Eu não precisava daquele emprego, mas senti imensa piedade dos colegas que tiveram que ali continuar. Os seguranças, a cada uma hora de pé, podiam sentar quinze minutos. Mas nós, intelectuais, não. Não havia lei trabalhista para nós.

— -

Com uma certa idade a gente olha no espelho e percebe que não tem mais 20 anos. Percebe que vai ficar velha e feia. Ficará comigo Ron velha e feia?

— -

"(…)de onde fogem os homens, é certo encontrarem-se os espíritos" Anatole France em Thais

— -

"A imaginação é menos rica que a vida." Tarkovsky em Esculpir o Tempo

— -

Eu e Ron compramos umaTV juntos. O que isso significa? É uma TV grande, preta, bonita.

— -

"Iqbal, o grande poeta, tinha toda razão. No momento em que percebemos o que é bonito neste mundo, deixamos de ser escravos. Que se danem os naxals e suas armas contrabandeadas da China! Se cada menino pobre aprender a pintar, será o fim dos ricos na Índia!" Aravind Adiga em O Tigre Branco