Doce
Véspera de feriado
Resolvi que seria uma boa ideia te conhecer
Você tinha um semblante ingênuo
Mas nessa estória
Eu fui a ingênua
Você de primeira quis que eu fosse
Pra sua casa
“Eu te faço o jantar”
Que doce, pensei
Mas achei que seria mais adequado
“Uma cerveja antes?”
E fomos lá naquela rua que hoje eu passo olhando pro chão
Eu cheirava meu melhor perfume
Maquiagem
Lingerie
Era um voto de confiança
Depois de quatro meses em inércia
Finalmente algum pontapé
Para meu mundo girar novamente
Você conhecia o nome dos garçons
Que doce
“Vamos lá pra casa?”
Pensei um pouco
Eu não era dessas coisas de primeiro encontro
Aceitei
Um voto de confiança
Chegamos lá e a chama acendeu
Eu pedia
“Vamos com calma”
E você fazia que sim com a cabeça
E continuamos indo
Mas tudo o que você fazia não tinha calma
Era violento
Doía
“Pare”
Era sincero meu pedido
Mas te ensinaram que quando a gente diz
Não
É porque estamos gostando
Eu não estava
Não estamos
Eu não gostei
Doeu
Me esvaziou
Você saiu de cima de mim
Como quem olha para uma obra de arte
Que acabara de ser finalizada
Ali estava eu
Sua monalisa
Sem expressão alguma
Que doce
Me lambuzou inteira
E agora eu me sentia melada
Fui pra casa
Chorei
Me senti fraca por chorar
Não era nada demais foi somente
Um sexo ruim
Mas depois eu entendi
Não era doce
Era amargo
Tão amargo quanto o gosto das dipironas
Sádicas
Que eu engoli para esquecer
Esse voto de confiança

