Thaís Gonçalves
Jul 20, 2017 · 4 min read

Não monogamia: história, política, emancipação e capitalismo

A monogamia surge historicamente como um mecanismo de opressão e restrição das práticas sexuais e afetivas das mulheres. Através da construção e consolidação do amor romântico por meio da instituição do casamento, as mulheres adquiriram a coleira intitulada ‘’amor’’. Amor este que possui o aval da violência quando a entidade suprema do casal é abalada pelo ciúme e/ou pelo que se entende por traição.

A fidelidade afetiva e sexual surge nesse contexto para garantir a legitimidade da prole para a efetiva transmissão da herança dos bens e da propriedade privada. Para assegurar a relação de exclusividade na relação por parte da mulher, implementou-se no cotidiano as noções do amor romântico, assegurado pelas novas formas artísticas e sociais que adotaram seus valores. Se anteriormente a união entre duas pessoas se dava por interesse material, com o amor romântico o quesito emocional foi incluído e valorizado na transmissão da propriedade privada através da família nuclear, fazendo com que a mulher também se tornasse propriedade privada do homem nesse processo.

A figura masculina dentro dessa relação é justamente a de proprietário: dos bens, da terra, dos filhos e do corpo feminino. Percebe-se que os homens de forma geral, mesmo dentro das relações monogâmicas, nunca viveram a prisão amorosa que se impõe para as mulheres. Foi e é tido como comum o que se entende por traição masculina. Afirma-se inclusive que é parte do instinto natural do homem buscar por mais satisfação sexual para além do núcleo relacional. Tal situação costuma ser atribuída como responsabilidade da companheira que não se dedica o bastante para a satisfação do parceiro, dentro da lógica machista violenta que pressiona mulheres a fazerem o que não querem com seus corpos e vidas em troca da segurança proporcionada por uma relação, ainda que em detrimento de sua autonomia e de suas vontades próprias.

Partindo da compreensão da monogamia como um mecanismo que surge da materialidade social patriarcal, machista e capitalista para a categórica e contínua reprodução dessa sociedade de opressões, se pode questionar a persistência da naturalização dessa forma de relação dentro de espaços compostos por minorias anticapitalistas. Analisar criticamente as antigas estruturas que permeiam as relações interpessoais dentro de sua perspectiva social e histórica é fundamental para ponderar o projeto de sociedade que se quer criar e viver, construindo novas dinâmicas e formas que rompam com lógicas violentas, opressoras e aprisionadoras.

No entanto, é necessária a compreensão das limitações sociais que se impõem e transpassam as práticas emancipatórias para estruturar nossas ações e relações para além da rasa noção individual de empoderamento. Dentro da sociedade capitalista, as relações livres não serão tão livres quanto se deseja, pois as condições materiais de vida e as limitações impostas pela rotina do trabalho e da dependência econômica (majoritariamente feminina) limitam essas experiências, bem como as constantes contradições entre os valores emancipatórios individuais e a esmagadora realidade social e coletiva.

Dessa forma, não basta que a negação da monogamia e as posteriores alternativas e propostas de relações não monogâmicas se restrinjam a ‘’mera liberação do corpo’’ (BRITO; FREIRE, 1986, p.19) desprovida de teor político. Defender novas formas de relação que não estejam pautadas na família nuclear e no amor exclusivo fortemente incutido nas noções e manifestações de posse, implica a compreensão e a luta contra as opressões que permeiam a vida: o capitalismo, o machismo, o racismo e a lgbtfobia. A resistência a estas formas violentas se dá na luta coletiva em uma perspectiva socialmente abrangente, mas também deve estar presente nas relações interpessoais, até para que seja coerente na militância organizada.

‘’É impossível manter a liberação corporal se não adotamos uma estratégia para vencer as repressões que oprimem os nossos corpos. (…) Em síntese, a busca da liberação corporal, da liberdade individual, só será bem sucedida se emoldurada pela busca da liberdade coletiva.’’ (BRITO; FREIRE, 1986, p.19)

Construir relações calcadas em novos valores em cima de velhas bases é um processo intenso de contradições entre as pessoas envolvidas e a realidade social. Tornar essas relações viáveis e efetivas se dá através da auto-observação dentro da relação, destruindo noções de poder e autoridade, rompendo com práticas de abuso físico, emocional ou psicológico, trabalhando no desenvolvimento da própria autonomia e auxiliando no desenvolvimento da autonomia das demais pessoas envolvidas para que se escape de relações de dependência. A compreensão das motivações dos próprios sentimentos que surgem das contradições é um mecanismo importante que remete continuamente aos condicionantes sociais, que não são e não devem ser entendidos como determinantes. Essas contradições devem ser partilhadas entre as pessoas envolvidas para que haja a possibilidade de troca de experiências e percepções na constante construção de uma nova forma de amar e se relacionar.

Através da transformação da vida cotidiana diante do percurso das relações livres, a responsabilidade emocional se torna uma demanda essencial para o desenvolvimento e bem-estar dentro das relações. Para isso, é importante considerar que todos os envolvidos nessa rede de relações são seres históricos e sociais fundados nas noções do amor romântico, nuclear e monogâmico que orientam nossas práticas amorosas e muitas vezes persistem e se reproduzem dentro de relações não monogâmicas. Possuir uma rede na qual se discute, destrói e reformula essas noções é imprescindível para a efetividade das relações livres, dentro das possibilidades emancipatórias restritas já apontadas anteriormente.

Assim como as experiências e condições subjetivas condicionam o ser, cabe às novas relações propor e construir experiências e condições objetivas que possibilitem o sentir, o pensar e o construir de novas formas e arranjos para o amor e as relações afetivo-sexuais tendo como base as possibilidades múltiplas, as relações plurais, dialéticas, solidárias, empáticas e emancipatórias.

Referências bibliográficas:

BRITO, F.; FREIRE, R. Utopia e Paixão. 4ª edição. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

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