UX Design como uma ideologia pessoal

Web Design. Esse termo parece uma coisa só, e muitos cursos tentaram fazer dele um combo indivisível, mas a realidade do mercado tem mostrado resultados bem diferentes, graças a Deus.

No conteúdo dos cursos, eles prometiam (e muitos ainda prometem!) te ensinar UX Design, UI Design (e ferramentas!), Direção de Arte (e ferramentas!), Motion Design (e ferramentas!), Design Thinking, lógica, programação front-end e programação back-end.

A tendência, obviamente, é você desencadear depressão.

Se você (assim como eu) deseja ser 100% em um assunto, dominar todas essas disciplinas é algo desesperador. Trabalho há quase 8 anos com web e posso dizer que não conheci ninguém que domine todas essas disciplinas de forma 100%.

Organicamente, os profissionais vão se descobrindo no mercado tendendo ao desenvolvimento ou ao design. Mesmo o mercado me mostrando essa divisão de funções, até quase pouco tempo eu ainda queria dominar ao menos todas as disciplinas do design E front-end porque achava que era o mínimo que poderia fazer para seguir a vida e ter uma “liberdade” na área.

Dominar programação, pra mim, é sinônimo de muito poder e já que não conseguia abraçar tudo, ao menos com front-end tentei me virar. Mas muitas empresas ainda pedem o combo, o que claramente trará um profissional generalista, mas com suas vantagens.

A redescoberta do designer como alguém capaz de trazer soluções baseadas na empatia e na observação (como na Bauhaus, que almejava um alívio a produção em massa da famigerada era industrial), independente de desenhar a interface/meio, ressignificou meu dia a dia.

Nas faculdades, cursos e empresas poucos destacam esse papel por valorizarem muito mais a parte técnica e ferramenteira desses profissionais. “Não existe designer se não existe interface entregue”.

Como optei pelo design, o mercado me levou aos cargos de designer digital e/ou UI Designer Front-end. Designer digital, nos últimos tempos, muito se resumiu a criação de peças para redes sociais com máscaras de branding, o que nunca me satisfez. Para mim, tudo só visava a lógica do produzir e vender, o mesmo da era industrial. O tão vendido “relacionamento” nas redes sociais pouco se concretizava de fato e a pressão das agências por posts criativos atrelando a marca, num determinado momento, se resumiu a tentativas frustradas de memes que ninguém ria.

A criação de peças publicitárias não me transformava como ser humano, não acreditava no que fazia e não via contribuição nenhuma ao mundo. Não estou menosprezando, não mesmo. Estou apenas falando sobre perfis.

Uma pessoa pode satisfazer-se totalmente criando arte e conceitos em suas peças publicitárias porém, sejamos sinceros, ter essa liberdade no mercado é raro diante das barreiras e processos (chefe, atendimento, cliente, cliente do cliente, etc). Aliás, outra decepção profissional: apesar de amar arte, por muito tempo me auto-enganei achando que pudesse misturar arte ao design, mas isso raramente pode acontecer.

Resumindo, o que mais acontece em agências é: use essa foto e coloque o logo. No máximo um texto. Apesar da limitação criativa, isso era mais acalentador do que aquelas vezes em que o cliente queria colocar na peça todas as cores do arco-íris mais a cor institucional com todos os textos que a empresa já escreveu na vida toda. Obviamente, estou me referindo as atividades mais rotineiras. Claro que as vezes apareciam trabalhos legais. Mas pra mim, caia sempre no produzir para vender mais e isso não fazia sentido.

Ser UI Designer já era diferente, eu estava criando facilidades para o outro. Eu estava pensando no outro. Eu estava melhorando a experiência de alguém. E isso me envolvia muito mais. Me fazia ter empatia o tempo todo e o fato de sintetizar numa interface a solução de um problema despertava em mim algo mais motivador.

Analisar o comportamento do usuário mais ainda. Sempre tive interesse em psicologia e isso me aproximava ainda mais de UX Design. Nem preciso dizer que o momento que despertei para me aproximar mais de UX, foi um divisor de águas, pois consegui trazer mais propósito ao trabalho, coisa que se perde com a forma automatizada de trabalho nos moldes de linha de produção de pastel.

O fato de poder criar maneiras (produtos) que facilitem ou transformem a vida de alguém me contagiou. Poder descobrir necessidades e encontrar mecanismos de solucioná-las foi uma grande descoberta. Parecia que dava sim pra ser uma espécie de psicóloga do usuário. Mais que isso, diferente de um analista que te ajuda a se conhecer melhor, um UX Designer poderia também te dar uma solução em forma de produto para uma necessidade.

Concluí que, quando uma empresa decide ter um cargo de UX Designer dentro dela, isso reflete uma ideologia mais empática com os próprios colaboradores, onde a opinião importa. As necessidades importam. E sobretudo, as relações importam e transformam o modo como podemos viver, de forma muito mais colaborativa, onde a cocriação pode estar presente em qualquer atitude, desde pensar numa maneira de juntar os cacos de vidro do copo que alguém acabou de quebrar de forma mais rápida até na criação de um produto que revolucione a maneira como a água chega aos lugares mais distantes na seca através da tecnologia.

UX Design tem a ver com uma nova mentalidade de mundo, que se traduz não só na preocupação com os usuários, mas na preocupação com todas as relações :)