O estranho presente em nós

Em tempos de superexposições nas redes sociais, com uma infinidade de selfies e narcisismo a gosto do freguês, penso na mensagem contida num pequeno livro de José Saramago. N’O Conto da Ilha Desconhecida, o escritor português lança mão de metáforas para salientar a importância do mergulho interior com o intuito de explorar lugares insólitos presentes em cada um de nós.

A crueldade dos dias, a nos engolir de modo contínuo, bem como a ferocidade do mundo engendrada pelo capitalismo afasta o exercício de mirar para dentro numa viagem rumo ao desconhecido em busca de novas possibilidades existenciais que não estejam condicionadas pelo esgotamento de nossas forças (físicas e emocionais).

A obstinação do homem para conseguir um barco (tarefa que mostrou-se difícil desde o começo) e lançar-se em direção ao mar em busca da ilha desconhecida, encoraja-nos a enfrentar nossos piores temores e receios. Correr o risco de singrar águas para a descoberta do inóspito que habita cada de um nós significa uma aventura em direção ao auto-conhecimento (infindável) eclipsado pela torrente de superficialidade tosca que emana das redes sociais. Porque, como afirma Saramago, “é necessário sair da ilha para ver a ilha, (…) não nos vemos se não saímos de nós.”