Pronto para dar o bote

À parte minhas críticas e ressalvas às medidas políticas realizadas pela presidenta Dilma Rousseff desde seu primeiro mandato, enxergo essa triste farsa prestes a se encerrar como o início de um retrocesso abissal que promete minar alguns avanços conquistados nos últimos anos. Num jogo de cartas marcadas, o resultado parece inevitável. As formalidades próprias ao processo convertem-se, então, em meras estratégias para conferir ao imponderável alguma legitimidade fajuta.

A justificativa por trás do impeachment — os tais crimes de responsabilidade fiscal — configura-se como a cereja do bolo daqueles insatisfeitos com o andar da carruagem que não abrem mão de continuar ditando os rumos do país ao seu bel-prazer. Tem algo de irônico e trágico nisso tudo quando nos damos conta de que até outro dia toda a turba do governo interino de Michel Temer (incluindo o próprio) estava no mesmo barco que hoje pretende-se afundar.

Interesses mesquinhos de uma classe política caduca e descolada da população ameaçam a democracia dos vários Brasis que ainda sofrem de problemas históricos, como a desigualdade social. É incrível como o enfrentamento de nossos desafios mais cruciais provoca o acuamento de uma elite medíocre e burra. O Brasil, quando parece que vai, não vai. Eterno país do futuro, de promessas e esperanças, mas também vazio. Alguma coisa sempre nos emperra e está ali, a espreita, pronta para dar o bote a qualquer momento.

Talvez seja o caso de começarmos a pensar no cenário pós-impeachment que se avizinha e, por tabela, nas lutas presentes nesse quadro. O terreno é árido. Diante de tantos revezes, não podemos ceder à melancolia. À esquerda, de um modo geral, caberá repensar inúmeras práticas, pensamentos e posicionamentos que sucumbiram em erros cruciais e, de certa forma, em sua própria derrota.

Charge da cartunista Laerte publicada na Folha de S. Paulo em 10 de fevereiro de 2015.