Progresso às avessas

Ativistas protestando contra a construção da usina em junho de 2012. (Atossa Soltani/AFP)

Em determinado momento de “Belo Monte, Anúncio de uma Guerra”, uma senhora expressa seu amor pelo Rio Xingu ao dizer “não troco ele por nada.” Como no título do livro de Gabriel García Márquez — publicado em 1981 — , ao longo de quase duas horas de documentário somos confrontados com a crônica de uma morte anunciada. O projeto de construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte remonta à época da ditadura civil-militar. Controversa desde o início, a proposta fundamentava-se na construção de uma barragem no Rio Xingu, situada a 40km do município de Altamira, no estado do Pará. A despeito da resistência e luta incansáveis de índios, ribeirinhos e demais afetados, Belo Monte (ou Bela Morte) de fato saiu do papel e tornou-se peça-chave no programa de desenvolvimento traçado pelo PT. À maneira de um rolo compressor, a obra soterrou violentamente a cultura de povos indígenas, constituindo-se como parte de um projeto mais amplo que, nas palavras do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, transforma o índio em pobre. O filme, ao destrinchar a brutalidade de um projeto que desprezou todos os impactos sócio-ambientais acarretados pela construção de Belo Monte (diversas pessoas tiveram suas vidas profundamente modificadas e até hoje aguardam inutilmente uma resposta do poder público), demonstra de modo inequívoco como o Brasil encontra-se atrasado ao levar adiante iniciativas que aludem a um desenvolvimentismo caduco travestido numa desprezível aparência de progresso.