Por que gostamos tanto do #tbt?

Sim, sou eu com a Eliana, em algum momento de 1993

É padrão ver postagens em sites de redes sociais de situações que estão acontecendo naquele exato momento. Plataformas como Snapchat e Instagram até mesmo incentivam a prática através dos modos “história”. O Facebook tem o seu “vídeo ao vivo”. Porém é fato que usuários destes apps também gostam de compartilhar acontecimentos do passado. Tais momentos são conhecidos como “throwback thursday” (“quinta-feira do passado”, em tradução nossa) ou “#tbt”. Se temos como premissa que os sites de redes sociais foram planejados para que as pessoas publiquem momentos atuais de suas vidas, por que tantas pessoas querem compartilhar material do passado? (Eu, inclusive, já que neste ano entrei de vez na onda do #tbt)

Primeiro precisamos definir o que é um site de rede social. Para as pesquisadoras Danah Boyd & Nicole B. Ellison, sites de redes sociais são:

“Serviços da web que permitem que indivíduos construam um perfil público ou semipúblico no interior do sistema delimitado, articulem uma lista de outros usuários comuns quais compartilham uma conexão, e vejam e percorram sua lista de conexões e aquelas feitas por outros dentro do sistema”

Ao realizar uma pesquisa no serviço Google Trends, é possível observar que o termo “throwback thrusday” começou a ser mais usado na internet a partir de 2012, ano em que a empresa Facebook comprou o aplicativo de publicação de imagens Instagram e o tornou mais popular entre os usuários da rede. No início, a brincadeira consistia em publicar um material que possua cinco ou mais anos de idade, indicando com a “#tbt”. Porém a dinâmica foi ganhando novas formas e, atualmente, só é necessário postar uma imagem ou vídeo de algo não está acontecendo no instante da publicação. Pode ser a foto de uma viagem de 5 anos atrás ou até mesmo de um show que aconteceu na noite anterior. Em reportagem da revista “Sports Illustrated”, vemos que a hashtag foi popularizada nos Estados Unidos por conta de uma ação da NBA (National Basketball Association) nas redes sociais, na qual eles divulgaram fotos dos jogadores da temporada quando ainda eram crianças.

Para explicar essa questão, é preciso levar em consideração o pensamento de Clay Shirky, professor universitário norte-americano e autor do livro “A Cultura da Participação: Criatividade e Generosidade no Mundo Conectado”. Ele acredita que:

“vivemos, pela primeira vez na história, em um mundo no qual ser parte de um grupo globalmente interconectado é a situação normal da maioria dos cidadãos”

Ou seja, parece razoável que, dentro desta realidade, as pessoas quererem compartilhar momentos de sua vida que não estavam disponíveis para serem apreciados por outras pessoas em um momento pré-internet. É a forma que muitos tem de dar sentido à vida antes da internet e ajudar a compor um personagem que é formado ali com suas publicações, reflexões e imagens. Segundo o pensamento de Pramod K. Nayar, que estuda a cibercultura, explicado pelo pesquisador Luiz Mauro Sá Martino:

“Identidades não existem naturalmente, mas são constituídas nas relações sociais. Na medida em que essas relações são desiguais, marcadas por intervalos de poder, a construção de identidades culturais está ligada a uma lógica de tensões, dinâmicas e disputas pelo direito de ser quem se é no espaço social”

Só que o #tbt também pode ser considerado uma forma de mercantilizar suas recordações. O professor da Universidade de Westminster, Christian Fuchs, em uma leitura marxista das redes sociais, alerta para essa lógica. Para ele, é

“Difícil para os usuários perceberem que, ao fazerem uso dessas mídias, estão trabalhando e que são explorados porque está em jogo um fetichismo inverso da mercadoria”

Fuchs afirma uma participação efetiva dentro das redes sociais somente aconteceria se as relações de trabalho mudassem ao ponto de que cada usuário tivesse uma participação de cunho financeiro — ações ou receber dinheiro pela venda de seus dados, por exemplo — em cada empresa que ele mantém uma conta aberta e ativa. Sem isso, a lógica particular da propriedade privada e da mercadoria continua: quem usa esses serviços sem um retorno financeiro direto acaba sendo explorado, já que as companhias usam os dados que o usuário gerou para ganhar dinheiro, vendendo anúncios.

Mesmo que essa publicação mostre uma realidade de anos atrás, a ferramenta percebe quais são os seus padrões de consumo, oferece propagandas e recolhe dados da mesma forma. É o que também pontua o pesquisador brasileiro Alex Primo, ao afirmar que, nas redes sociais, estamos “industrializando” nossas amizades, ao nos submetermos

“a um conjunto de estratégias de racionalização de afetos, de interações ‘linguageiras’, e da explicitação de endossos (curtidas e compartilhamentos) cujo tratamento estatístico e geração de padrões de comportamentos de consumo podem ser comercializados para subsidiar futuras estratégias mercadológicas”

Dessa forma, ao compartilhar fotos antigas, estamos colocando as nossas memórias e como nos vemos como indivíduos dentro da lógica de mercado que as empresas proprietárias de redes sociais carregam. Ao digitalizar e colocar nas redes o que era somente presente no mundo offline, damos mais munição para que a publicidade conheça nossa forma de consumo anterior, sendo possível assim montar estratégias mais refinadas de venda.

Mercantilizamos ainda mais nossas vidas em troca de likes e curtidas por um momento que já passou. Com a lógica demonstrada pelos autores apresentados, talvez seja melhor guardar essas recordações apenas em álbuns de família.

Thaís Lima é editora de redes sociais do G1 e pós-graduanda no curso Digicorp-USP. Toda opinião escrita aqui é pessoal e somente representa minha visão sobre as coisas.

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