Transando com porcos: o quanto de ‘vida real’ tem o 1º episódio de ‘Black Mirror’

E se o viral da vez fosse grotesco? E se ele mostrasse a princesa de um país sendo torturada e, em troca da sua liberdade, o primeiro-ministro teria que transar com um porco e a cena seria transmitida sem cortes em cadeia nacional de TV? É o que o episódio “The National Anthem”, da série “Black Mirror”, usa como fio narrativo para imaginar, contar, analisar e contestar o comportamento que a sociedade regrada e mediada por telas de smartphones, computadores e TVs teria em uma situação como essa.

Apesar deste episódio também conter críticas de cunho político e econômico, nesta análise vamos nos focar somente nas implicações culturais, comportamentais e tecnológicas que o autor Charlie Brooker incluiu na história.

E sei que está todo mundo animado com a temporada produzida pelo Netflix, mas as primeiras histórias, criadas em 2011, são assustadoras em mostrar com uma precisão quase cirúrgica como estaríamos 5 anos depois. Claro que algumas coisas ainda não aconteceram, mas acho que não vão demorar muito mais para surgir por aí. Minha próxima aposta é o chip que armazena memórias do ep “The Entire History Of You”.

SPOILERS a partir daqui ;)

A primeira história da série já mostra muito bem como nos relacionamos com a tecnologia presente no cotidiano e mostra mecanismos que já são comuns quando precisamos nos informar sobre algo.

O pesquisador americano Clay Shirky, em seu livro “A Cultura da Participação”, afirma que “vivemos, pela primeira vez na história, em um mundo no qual ser parte de um grupo globalmente interconectado é a situação normal da maioria dos cidadãos”. Ou seja, usamos esta nova tecnologia para conversar, trocar mensagens e se informar. Desta forma, conseguimos entender a razão do sequestrador da série colocar o vídeo da Princesa Susanna sendo coagida a falar as suas demandas através de um site de compartilhamento de imagens, o YouTube. Ele tinha a completa consciência que hospedando algo neste tipo de ferramenta, o próprio governo não conseguiria controlar o acesso. O que de fato aconteceu: apesar do vídeo ter ficado apenas 9 minutos no ar, ele conseguiu se espalhar de maneira viral.

Trazendo este exemplo para a realidade, podemos citar o exemplo da gravação da morte de dois jornalistas em agosto de 2015. O atirador registrou tudo em vídeo e hospedou em sua conta na rede social Twitter. A própria empresa identificou o conteúdo nocivo das imagens e conseguiu removê-la em poucos minutos. Porém já era tarde demais. Várias pessoas conseguiram obter aquilo gravando em seus computadores e colocando de volta na internet.

O autor John B. Thompson também explica esse tipo de comportamento. Ele defende que algo se tornar visível ao público por meio de uma foto ou vídeo não é um acidente, e sim uma forma de estratégia por parte das pessoas que entendem que a visibilidade é uma arma de luta social. As transmissões praticamente ao vivo de execuções de reféns por parte do Estado Islâmico são um exemplo. Nas palavras do autor:

“O desenvolvimento dos meios cria novos campos de ação e interação que envolvem diferentes formas de visualidade e nos quais as relações de poder podem alterar-se rapidamente, dramaticamente e tomando caminhos imprevisíveis”

As exigências do sequestrador, em que a relação sexual do primeiro-ministro com o porco deveria ser filmada de uma maneira única, também tem a ver com o que Thompson propõe na nova visibilidade. Agora ver não é somente abrir os olhos. O olhar está sujeito a angulações de câmera, cortes de edição e adição de som, o que pode mudar a percepção do receptor. Desta forma, podemos justificar a razão do raptor querer que não houvesse edição, cortes ou mudanças de ângulo. As pessoas precisavam ver o ato do jeito mais cru possível.

Posse do Papa Francisco em 2013

Mais um comportamento observado por Shirky é exibido no episódio, no momento em que é construído o plano de colocar um ator pornô no lugar do primeiro-ministro. O sequestrador descobre a trapaça quando um funcionário do estúdio filma o profissional de filmes adultos chegando e joga o vídeo na internet. Se trazermos isso para a realidade, Shirky explica que é praticamente impossível nos dias de hoje que algum acontecimento não seja filmado através de uma câmera de celular, de eventos positivos, como a posse do novo Papa, até uma catástrofe natural, como a queda da barragem de Mariana, em Minas Gerais. Desta forma:

“Esses tipos de mudança em escala significam que eventos antes impossíveis tornam-se prováveis e que eventos antes improváveis tornam-se certezas. Antes confiávamos em fotojornalistas profissionais para documentar tais eventos, mas agora estamos cada vez mais criando uma infraestrutura coletiva e recíproca. O fato de que aprendemos cada vez mais sobre o mundo através do que estranhos aleatoriamente escolhem tornar público pode ser uma forma insensível de encarar o compartilhamento, mas até mesmo isso tem algum benefício para humanidade”

O governo britânico no capítulo da série não quer que as demandas para liberar a refém, que são extremamente pejorativas para o primeiro-ministro, sejam conhecidas pelos súditos da coroa. Tanto que tomam a decisão de lançar um alerta para as empresas de comunicação da Grã-Bretanha para que não divulguem as imagens, nem falem o que está acontecendo. Além de confirmar que o conteúdo é verdadeiro, através da proibição, a equipe de jornalismo da redação fictícia que é mostrada na série se vê em um dilema: todos os seus telespectadores, em seus perfis em diversas esferas da internet, estão reproduzindo, comentando e até “resignificando” aquele episódio. E estranhando muito que uma rede de TV não estivesse tomando aquilo por suspeito, até mesmo por verdadeiro, e repercutindo. Uma das explicações para esse comportamento por parte dos espectadores vem do livro “Cultura da Convergência”, escrito pelo pesquisador da University of Southern California Henry Jenkins. Uma das premissas é que o indivíduo passa a ser também criador e divulgador de conteúdo, visto que:

“Se os antigos consumidores eram previsíveis e ficavam onde mandavam que ficassem, os novos consumidores são migratórios, demonstrando uma declinante lealdade a redes ou a meios de comunicação. Se os antigos consumidores eram indivíduos isolados, os novos consumidores são mais conectados socialmente. Se o trabalho de consumidores de mídia já foi silencioso e invisível, os novos consumidores são agora barulhentos e públicos”

Não era aceitável para eles que um caso tão importante como aquele não estava estampado em todos os veículos tradicionais de mídia. A redação sentia essa repercussão ao ser bombardeada de mensagens de seus leitores. Apesar desta mudança de comportamento, é de se considerar que boa parte da audiência precisa confirmar através da mídia tradicional, que ainda guarda credibilidade, as informações que recebe através de outros canais. É o que Jenkins define em outro estudo, publicado no livro “Cultura da Conexão” :

“As decisões que cada um de nós toma quanto a passar adiante ou não textos de mídia […] estão remodelando o próprio cenário de mídia”

Desta forma, vejo que essa seja a razão de tantas empresas responsáveis por gerir redes sociais ainda quererem fazer parcerias com a “velha mídia”. Assim que seus usuários se livrarem desta amarra, e começarem a checar a veracidade das notícias que recebem de outras maneiras, talvez essa parceria já não se prove mais interessante. Porém, na sociedade em que vivemos, essa relação ainda se faz necessária, tanto para o público e empresas de comunicação e tecnologia, quanto para a esfera política. Na série, esse comportamento é explícito quando, afinal, ninguém acreditava de verdade que a Princesa havia sido sequestrada até que canais noticiosos confirmassem os fatos. E ninguém saberia que ela tinha sido subtraída se o vídeo de sua captura não tivesse sido colocado na internet. Se ele tivesse sido entregue somente para o governo, tal informação ficaria fora do alcance do público.

O poder de propagação da mensagem era o maior medo do governo britânico na série e o principal condutor narrativo da história quando se tratava da mídia. Sempre eram ditos quantos tuítes sobre o tema estavam sendo publicados, quantas buscas no Google cada termo ligado ao sequestrado tinha, quantas pessoas estavam comentando isso através de seu Facebook.

Apesar de parecer que todos estavam recebendo um conteúdo igual, que era o que o primeiro-ministro temia, se aplicarmos as teorias de Eli Pariser, publicadas em seu livro “O Filtro Invisível: O que a internet está escondendo de você”, a situação muda. A série não dá conta de mostrar esse cenário, mas podemos supor, que, se a pessoa está se informando através de alguma rede social, dependendo do seu círculo de amigos, ela iria receber um certo tipo de conteúdo, talvez que tivesse mais links sobre o que aquela ação de sequestro significaria para a Coroa Britânica, ou quais eram as táticas para que a Princesa fosse liberada. Outro usuário poderia receber charges grosseiras do que o primeiro-ministro iria fazer com o porco ou comentários ofensivos e de chacota sobre o caso. É impossível saber. E é o que Parisier chama de filtro invisível: as empresa de tecnologia estão cada vez mais colocando protocolos que permitam que sua busca ou “timeline” seja cada mais personalizada com aquilo que tenha a ver com os seus interesses, na maioria das vezes, para que essas informações também sejam usadas em anúncios. Isso cria uma “bolha invisível”, em que não é mais possível ter o todo de uma situação. Como Parisier define:

“Para uma porcentagem cada vez maior de pessoas, feeds de notícias como o do Facebook estão se transformando em sua fonte principal de informações […]. Sites […] estão passando a fornecer manchetes segundo nossos interesses e desejos pessoais. A personalização afeta os vídeos que assistimos no YouTube […]. Os algoritmos que orquestram a nossa publicidade estão começando a orquestrar nossa vida”

John B. Thompson afirma que a forma como as pessoas veem e julgam um acontecimento, através da visibilidade que lhe é concedida, pode mudar tanto o curso da história como quanto o evento em si. Pelo conteúdo em que estavam expostos, em um primeiro momento, mais pessoas estavam apoiando o governo a não sucumbir aos pedidos de quem havia levado a Princesa Susanna. Quando ela “perde o dedo”, a situação muda e todos passam a pedir que o primeiro-ministro cumpra as exigências. Também o autor explica que a internet tornou a visibilidade mais complexa e ainda mais importante, já que agora é muito mais difícil que políticos controlem tudo o que é falado e visto sobre eles no ambiente digital. Visto os comentários pejorativos e de chacota que o personagem levou durante o episódio inteiro, sem nem ter cometido nada ainda.

Essa situação de visibilidade do fato para o governo, que quer escondê-lo a qualquer custo, também esbarra nas teorias de Thompson. Para o autor, a definição de “escândalo” em um mundo conectado muda: agora ele precisa passar de alguma forma pela mídia, tornado a visibilidade mediada obrigatória nesta cadeia.

Ao usar uma obra de ficção, o autor Charlie Brooker propõe uma discussão interessante de como estamos reagindo a um mundo conectado e sempre bombardeado de conteúdo, alguns de mensagem grotesca, como o mostrado no episódio que falei. Se tivéssemos passando pela mesma situação na vida real, teríamos este mesmo tipo de comportamento? Acredito que sim.

Por mais que tenhamos evoluído em questão de meios, se as mensagens forem de conteúdo pobre, vamos ter a mesma experiência de quando passamos pela automação da tipografia. Shirky explica que, naquele momento, muito material sem qualidade acabou sendo publicado, porque era mais fácil de reproduzir. A mesma coisa se reflete em conteúdos na internet. As demandas ditas por uma Princesa desesperada não eram agradáveis de serem vistas. Mas o sequestrador publicou nas redes porque tinha esta possibilidade. E tinha consciência do poder que isso comporta, como afirma Thompson. E do interesse que tal cena desperta no usuário comum.

O que a série também deixa claro é o poder que ainda um canal de publicação tem, quando naquele há um conteúdo exclusivo. O ato do primeiro-ministro com o porco seria somente transmitido pela cadeia nacional de TV britânica. Não existiria outro meio das pessoas acompanharem aquele momento. Desta forma, as ruas de Londres ficaram vazias no momento em que todos procuraram uma TV para assistir. A distribuição é o rei, mas o conteúdo ainda é rainha. Me lembrou muito a reclamação que criadores de conteúdo do Vine tinham com a ferramenta. Apesar de ser um ótimo meio de publicação, eles afirmavam que não se sentiam apoiados pelo Twitter, dono da plataforma. Assim, migraram para outros sites, como YouTube e Facebook, levando assim toda a sua audiência. O fim todos sabem: o Twitter anunciou que o Vine vai ser encerrado. Sem o que as pessoas quererem ver, o meio tecnológico é irrelevante.

Outro ponto que a série deixa bastante claro é que os “espelhos pretos” estão em definitivo em nossas vidas e não podem ser mais ignorados. Por mais que alguém quisesse fugir das notícias daquele momento, sempre uma tela poderia ser vista, na mão de uma pessoa no metrô, em um pub onde era servido o almoço, em uma sala de espera no hospital. Mesmo desempenhando funções em que o contato com este tipo de tela fosse completamente dispensável, ela continuava lá, impondo a sua presença. E agora que ela tem a possibilidade de interação, através de sites e redes sociais, vira uma armadilha impossível de escapar. Por isso as repercussões de um fato são constantemente amplificadas e resignificadas, seja a nova selfie de uma socialite, seja um escândalo político. É fácil dar sua opinião, tudo está ao alcance de um clique. Temos somente que refletir qual é a moeda de troca das informações que recebemos, seja venda de dados ou sendo público de anúncios. E não se iludir achando que tais “linhas do tempo” são puras, sem influências de escolhas guiadas por um modelo de negócio rentável para a empresa proprietária do algoritmo.

Porque o espelho pode quebrar.

— — — — — — — —

Thaís Lima é editora de redes sociais do G1 e pós-graduanda no curso Digicorp-USP. Toda opinião escrita aqui é pessoal e somente representa minha visão sobre as coisas.