tenho sede de ouro.

Rezo no templo Borobudur do século 8 antes de Cristo onde as cabeças de Budas decapitados deixaram pistas na selva para que a espiritualidade pudesse encontrar a razão do mundo ainda girar.

Censuraram os corpos. Esconderam os peitos e os eixos entre as pernas. Com bombas prometeram contar a história da humanidade sem sexo. No amontoado de pedras talhadas de arte pudica e rude, as silhuetas ainda dançam quando podem enganar. Nas mãos, armas finas e afiadas de um livro de fé encorajam homens de vestes compridas a ameaçarem meu olhar.

Eu grito: tenho sede de ouro!

Uma língua brilha em amarelo queimado de uma espada de luta. Traz promessas do Egito. Segredos que não posso contar.

Vou-me embora daqui.

Fugi do musgo tropical equatoriano para voltar para os braços da minha areia deserta. Cada grão quente relembra minhas células onde eu queria estar. Dessa vez, não tenho o verde líquido para condensar meus pensamentos. Eu e minha sede sob o olhar faraônico de um Egito morto há muito tempo.

Nem a precisão arquitetônica das pirâmides. Nem a força de seus escravos. Nem o mistério do Pi. Nem o ouro das pontas de metal que cobriam os dedos de Tutancâmon.

Nem os livros de história da arte que tentam explicar o que é o belo e como isso é relativo hoje em dia — mesmo que homens ditos artistas ainda insistam em gastar seu lápis desenhando em papel canson apenas rostos de moças bonitas ovacionadas por uma plateia de fantasmas.

Nem a maldição causada por esse brilho dourado que cobriu metade das igrejas portuguesas e espanholas em troca de um espelho.

Nem todos os espelhos. Nem toda história. Nem você vai ser capaz de acabar com a minha sede de ouro.