15 de março de 2017

hoje é dia 15 e eu me lembrei de tudo.

sabe, eu estava me acomodando com a ideia de que talvez eu me esquecesse de você. não esquecer no sentido “seguir em frente”, mas esquecer de um jeito em que te ver não seria como uma onda de lembranças dolorosas. eu estava lidando com o fato de que você seria o único que eu esqueceria completamente. até o dia 15 chegar. maldito dia 15.

hoje é dia 15 e você estava em tudo.

hoje o seu cheiro ficou impregnado em mim. fazia um bom tempo que ele não ficava. sentir seu cheiro me lembrou da primeira vez que seu casaco ficou aqui, que me lembrou da última vez que o vesti –sabendo que era a última- e, pela primeira vez, não senti aquele cheiro que eu tanto amava de desodorante barato. mas hoje eu senti. só hoje eu senti. e como senti. durante um tempo fiquei me perguntando se o cheiro só estava na minha cabeça ou se as pessoas ao redor também te sentiam quando me tocavam, abraçavam ou se aproximavam. prefiro pensar que estava só na minha cabeça, afinal, nunca gostei de dividir seu cheiro.

hoje é dia 15 e tudo desabou.

todo mundo que me conhece sabe que eu tendo a exagerar e dramatizar os acontecimentos da vida, mas não dessa vez. hoje eu tentei permanecer a pessoa positiva de sempre desde que abri os olhos, mas por incrível que pareça, o universo decidiu desabar de uma vez. pode ser algo da minha cabeça novamente. talvez o universo tenha desabado apenas para mim, já que você costumava ser esse universo. logo hoje desabou. só hoje.

hoje é dia 15 e eu entendi o significado real de sentir saudade.

eu gostava de sentir outro tipo de saudade, sabe? era gostoso ir me deitar e sentir necessidade de estar com você naquele momento e saber que em outro momento eu estaria. mas hoje eu senti uma saudade que dói. não sei se você já sentiu também, mas vou te falar um pouco sobre esse tipo de saudade. primeiramente, ela é realista. ela não cria possíveis cenários na sua cabeça que você sabe que não vão acontecer. ao invés disso, ela te preenche com memórias embaçadas e incompletas de algo que já aconteceu e que te fazem desejar voltar no tempo só para aproveitar um pouco mais aquele momento. me faz desejar voltar em todas as horas, minutos, segundos e milésimos de segundos em que estive do seu lado e não aproveitei o suficiente. e hoje, meu amor, essa saudade veio com tudo. hoje, dia 15, ela tomou conta de cada célula do meu corpo como se fosse uma doença, que me paralisa por completo. por favor, se souber a cura, você sabe onde me encontrar.

hoje é dia 15 e é só um dia qualquer.

é isso que minha cabeça repete constantemente ao longo do dia. é isso que tento dizer a mim mesma todas as vezes que alguém me pergunta a data, e é isso que meu coração falha em escutar desde a hora que acordei. não sei se você se sente da mesma forma, mas as vezes tenho o desejo de apagar minha memória dos últimos seis meses. igual Joel faz em “Eternal Sunshine of the Spotless Mind”, sabe? eu entendi que a mensagem que o filme tenta passar é de que não se pode viver sem lembranças, por mais que elas te torturem e te desgastem internamente cada vez mais. mas eu queria. e como queria. já tentei arrancar páginas e páginas do meu calendário, apagar um álbum inteiro de fotos, me livrar de tudo. mas no final, sempre resta o seu cheiro. maldito cheiro.

(hoje é dia 15 e você ainda me faz vibrar)

hoje é dia 15 e me pergunto se você também se lembrou.

provavelmente não. você sempre foi meio esquecido com datas, e eu sempre fui a louca das datas. me lembro de quando você riu do fato de eu me lembrar até as horas e minutos em que tudo começou. você se lembra? me lembro de fingir ficar chateada porque você riu e me lembro de encenar uma briga de mentirinha com você logo em seguida. me lembro nitidamente de como o seu olhar para mim mudou de alguma forma depois daquela hora e daquele minuto. você se lembra? caramba, eu poderia listar tudo que se passou na minha cabeça dentro dessas 24 horas do dia 15, e sendo uma fanática de carteirinha por listas, eu provavelmente já listei. mas isso eu vou guardar só para mim. vou guardar só para mim porque o dia 15 está chegando ao fim.

amanhã é dia 16 e seu aroma não vai mais estar grudado em minhas roupas.

amanhã é dia 16 e você vai ter desaparecido de tudo, como quem desaparece no meio de uma multidão.

amanhã é dia 16 e essas lembranças vão estar guardadas no fundo de um baú velho. guardadas para (talvez) serem desenterradas em um próximo dia 15.

amanhã é dia 16 e é só um dia qualquer.

mas hoje é dia 15. só hoje.

por hoje você vai ficar por aqui.