Oi, tudo bem?

Espero que sim — e você sabe que sim.
Comigo está tudo bem também.

Você deve ter percebido que não teve um vocativo depois da vírgula ali em cima… Mas não foi falha não. Foi falta. Falta de palavra certa. De ter um nome pra te dar. De saber como te chamar.

Falta de você, naquilo que só você foi pra mim — foi, no passado, pois hoje não tem, ao menos, vocativo. Depois de tantos apelidos e jeitinhos e piadas internas e diminutivos errados, você reduziu-se a duas letras na minha lista de contato. E que contato?

Já não nos falamos mais.
E, sabe(?), já não dói mais.

Aquela dor matinal de acordar sozinha já não existe (talvez porque eu não ando acordando sozinha). O piloto-automático das mensagens de bom dia que, por meses, teve que ser barrado, já foi desabilitado. O impulso de te mandar aquele link de um filhotão brincando na chuva já foi transferido pra algum outro contato da minha lista.

Te escrevo pra saber como está.
E pra te lembrar que já vai fazer um ano.
E pra te contar como foi esse ano em que eu perdi o tudo o que era nosso. Tudo o que era Nós.

Nossa casa. Nossas coisas. Nossos sonhos. Nossos planos de viagem. Nosso futuro. Perdi tudo o que ainda escreveríamos juntos. Perdi a primeira pessoa do meu plural.

E, neste — quase — um ano, a vida me foi toda nova. No decorrer desses onze meses eu fui forçada a conjugar meus verbos.

Chorei, muito. Caí, de madura. Sofri, nem sempre em silêncio. Deixei estar.
Me apeguei, verdadeiramente. Experienciei inconsequentemente (mas só temporariamente). Dei amor sem vocativos.

Eu, sem nós, fiz tantos amigos. Tanta coisa. Tanta merda (shit happens).
Fiz o que queria e, o mais importante, fiz o que precisava.
Eu me encontrei de novo. E me reconheci.

Fiz. Eu fiz. No meu tempo — verbal.

O que não fiz — ainda — , e faço agora, foi te agradecer por tudo isso.
Agradecer por ter quebrado as paredes do meu corpo, de forma tal, que meu espírito pôde ser livre. Agradecer por ter me destinado a toda uma vida comigo mesma.

Pois ao perder tudo o que era nosso, eu ganhei uma infinidade de tudo o há de ser meu. Ganhei a minha vida. Sem Nós. E sem nós.

Ao me perder do seu plural eu me encontrei. Singular.

Obrigada. Até mais. “TR”.