Das nossas piras de ego

Uma amiga queridíssima me disse uma vez que não existe vergonha em crescer, o problema é ser grande. Eu queria escrever um texto para a Rhamyra para agradecê-la por ter me dito isso.

Acompanho há um tempo um movimento de pessoas entrando na graduação sem opinião política muito definida se encantarem com os movimentos sociais e, a partir do momento em que começam a estudar e serem levadas a sério, se tornarem grandes. Elas ainda continuam sendo ninguém, mas certamente alguma coisa muda. Tem que mudar. Existe uma auréola brilhante feita de larvas e vermes em cima de suas cabeças, uma grandessíssima coroa de ego.

Se essas pessoas estão de fato mais conscientes sobre o mundo ao redor delas? Eu duvido — mas eu explico isso depois. A questão é que essas pessoas são, inquestionavelmente, em suas correntes teóricas e projetos políticos, melhores que você. Divergir sobre como construir espaços de resistência já te coloca em um outro espaço social, quer você seja branco ou preto, feminista ou não, você assume o espaço do inimigo.

A maior consequência dessa arrogância pseudo-militante é a parada do movimento de auto-crítica. Tudo que se aprendeu até então não chega a ser jogado no lixo, mas poderia muito bem ser enfiado no cu, uma vez que, no fim, nos corredores branquinhos de faculdades branquinhas o que ninguém nunca chega a desconstruir é racismo. Existe um movimento de ascensão de militantes de Facebook, engajadíssimos pelos seus likes.

Está em todo lugar, sabe? O racismo. Na fala pública que ignora os recortes raciais. No “eu não sou tuas nega” dito no role, mesmo sabendo a origem da expressão — mas não tem problema, né, “tava muito louca”. É na escolha das suas amizades e companhias amorosas. É na condenação seletiva do machismo — por que homens negros são escrachados enquanto brancos são muitas vezes protegidos pelas suas amigas? O racismo transborda e, em crise, racha a ideia de desconstrução de imposições sociais, de fluidez da pós-modernidade; no fim tudo está muito bem enraizado e estagnado, nós estamos estagnados, acorrentados pelo racismo dessas sutilezas, repletas de dor.

Nessa minha certeza da incapacidade dessa nossa geração em de fato se importar com os outros e em lidar com a alteridade é que eu não consigo acreditar que repensemos e estamos ficando mais conscientes sobre o mundo em que vivemos. Quais são os espaços de resistência que estamos construindo? Eles são espaços seguros para quem? Essa militância parece-me mais uma das nossas (tantas) piras de ego — porque, no fim, o problema mesmo não é crescer, é ser grande.