Sobre escolhas, racismo, solidão e força

Thaís Regina
Jul 21, 2017 · 4 min read

Acredito que me apaixonei por escrever no momento em que entendi que palavras são nomes que damos ao que nos cerca. É um código. Um código que possui, como todo código, seu significado. Muitas vezes podemos usar três palavras com o mesmo sentido e a nossa escolha tem que comunicar alguma coisa — afinal, não é isso que queremos? Comunicar? Nenhuma escolha pode ser vazia em um discurso, ela sempre significa alguma coisa — algumas vezes, o que mais queremos esconder. Quero começar esse texto escrevendo sobre como, muitas vezes, a escolha de certas colocações esconde racismo.

Certa vez uma mulher com quem eu saía me convidou para uma festa junina na casa de uma amiga dela. Cheguei e todos eram brancos. Passamos duas horas agradáveis conversando sobre divas pop e sobre como comidas de festa junina são deliciosas até que alguém sentiu a incrível necessidade do que eu tenho chamado de pontuar a diferença, então se dirigiu a mim: “Ah, muito legal que você tem o estilo todo diferente, assim, diferente e curte e conhece divas pop”.

Certa vez fui visitar um amigo. Estávamos em quatro na sala e eu era a única pessoa negra, bebendo e conversando quando, ao falarem sobre racismo com pessoas indígenas na universidade e eu manifestar o quanto esse tipo de coisa acabava com a minha (pouca) paciência, alguém sentiu a incrível necessidade do que eu tenho chamado de pontuar a diferença, então se dirigiu a mim: “Nossa, é que nem aquelas pessoas nada a ver que chegam para pessoa negra e fala ‘samba aí’, né? Nada a ver”.

Nessas duas situações, essas colocações não foram escolhas em vão. Essa incrível necessidade de pontuar a diferença pode também ser lida como racismo. Pode ser lida, na belíssima e dolorosa interpretação de W. E. B.Du Bois, em As Almas do Povo Negro, como uma pergunta nas entrelinhas:

Abordam-me numa maneira meio hesitante, olham-me curiosa ou piedosamente. Então, ao invés de dizerem diretamente, Como se sente sendo um problema? Falam, Eu conheço um excelente homem de cor na minha cidade; ou, Eu servi em Mechanicsville; ou, Essas ofensas sulistas não fazem seu sangue ferver? Para esses eu sorrio, ou demonstro interesse, ou reduzo o fervor para um abrandamento, como exija a ocasião. Para a verdadeira questão, Como se sente sendo um problema? — raramente dou uma resposta.

Certa vez encontrei uma professora que admiro muito com a filha dela. Parei para cumprimentá-la com todo o carinho do mundo e sua filha, uma criança pequena, ficou encantada pelas minhas tranças e, quase instintivamente, quis tocá-las. Ambas são brancas. Percebendo meu incômodo e falta de reação, minha professora disse para a menina que ela não podia tocar no meu cabelo — sem explicar o motivo. Espero que, ao chegar em casa, ela o tenha feito, espero mesmo que ela tenha dito que não é ok tocar no corpo das pessoas sem o consentimento delas (especialmente quando são pessoas negras) — ainda não tive coragem de perguntar a ela se essa conversa aconteceu.

Esse último episódio não contou com a incrível necessidade de pontuar a diferença, mas contou com a ausência disso. A ausência de se pontuar que, se você quer estar entre pessoas negras, construindo uma vida com elas, partilhando experiências juntos, é preciso se movimentar. É preciso romper o racismo que já vem enraizado. Nesse dia lembrei-me de uma passagem de Os usos da raiva, da Audre Lorde:

- Eu estava com a minha filha de dois anos no carrinho de compras pelo supermercado em Eastchester, em 1967, e uma garotinha passando no carrinho ao lado grita excitada, “Olha, mamãe, uma empregada bebê!”. E sua mãe te silencia, mas não te corrige.

Se você, pessoa branca, genuinamente quer amar pessoas negras (e na minha definição de amor, ele não existe sem respeito), em todo tipo de relação e qualquer esquema, sejam amizades, relações amorosas ou familiares, isso vai demandar esforço. Isso vai demandar mais que o seu querer. Isso será um trabalho, uma escolha diária e um esforço constante para negar seu racismo e entender quem está ao seu lado.

É preciso pensar duas, três, quatro, cinco vezes mais antes de dizer qualquer coisa porque as nossas vivências, de pessoas negras, nos colocam em outro espaço social de interpretação. E nós vamos ficar ofendidos. E nós vamos gritar contra isso. E a inocência, em um mundo como nosso, não é desculpa. E esse realmente é um trabalho de vocês, porque dar aula cansa e nós simplesmente não somos obrigados.

É um trabalho que exige muito mesmo — e a coisa mais chocante: ninguém deve nem vai te parabenizar porque, na verdade, esse trabalho é o mínimo. Uma decisão incômoda, que geralmente não é sequer tomada, não vem à mente de pessoas brancas; elas se dizem antirracistas por dó, não porque é um sistema desumano que não deveria ter sido criado para começo de conversa. Rejeito pena e conheço outros tantos pretos que fazem o mesmo. Sem querer meio querendo nos afundamos em um complexo de solidão.

Hoje pela manhã recebi mensagens no grupo de WhatsApp do coletivo negro da minha faculdade. Uma pessoa caríssima questionou o quanto nós, pela nossa escolha pessoal de militar, nos tornamos pessoas sozinhas. Esse texto saiu para ela. Querida, estamos mesmo sozinhos, porém com um acordo desses negado, se nós pedimos o mínimo e não querem nos dar, parece-me que para nós, pessoas negras, escolher a solidão é autocuidado. É auto-preservação. É consciência.

Então, a você, minha amiga, só tenho a dizer que eu quero é ressignificar a solidão, fazer dela minha arte, meus textos e minha voz. Eu quero selecionar a dedo com quem terei paciência, de quem eu vou cuidar — e espero que cuidem de mim de volta. Minarei minha solidão ficando ao lado do meu povo e de quem me quiser bem. Seleciono bem cada palavra da última frase desse texto, sem jogos, código muito preciso para as pessoas brancas me entenderem: escolha ser antirracista.

)
Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade