Lá vem

Foto: Henri-Cartier Bresson

Lá vou eu com meus olhos ressacados de sono sendo lavados por lágrimas incontroláveis de cansaço. Como é que pode o olho tá seco e chorando ao mesmo tempo? É sempre assim depois de uma noite pouco dormida e cabeça agitada. Muitos sonhos. Sonhos rápidos e densos, de morte à putaria. E lá vem mais um dia regado à café de máquina que mata meu estômago e ascende minha cabeça, até demais pro meu gosto porque à noite ficam os olhinhos acelerados lendo sem parar e a cabeça escrevendo textos nunca concluídos.

E lá vem aquele tipo de novo. Sapatos pretos muito bem engraxados com grandes bicos quadrados. Calça social curta, esses caras tem mania de calça curta que eu não sei muito bem mas não é estilo, a gente diz que o defundo era menor na minha terra. Camisa lilás de linho vagabundo coberta por um suéter azul marinho que ele deve ter comprado na Richards em três gordas prestações. Três porque isso não é loja que parcele muito, é loja pra quem tem dinheiro e quem tem dinheiro compra à vista, esse tipo aí não tem mas quer fingir que tem. Cabelo penteado pra trás com gel que dá aquele aspecto digamos, gorduroso, nenhum pelo na cara a não ser as sobrancelhas muito bem definidas, alinhadas, cento e vinte reais naquela franquia de shopping. Depilação turca que chama? Um contra-corpo no pé da escada rolante e o cara me fita, decerto pensando “que foi, nanica, vai passar ou não?” e me trava com sua pressa nada compreensível. Fiz um raio-x do fulano e o deixei ir na frente, vai parar na escada de qualquer maneira, que diferença faz pra mim?
 
E lá vem ela, com uma mochila caída pro lado, o cabelo tingido de preto-mais-escuro-que-preto lambido pro outro, fone nos ouvidos e um celular na mão. Whatsapp não pode esperar. Com a fuça quase grudada na tela nhaquenta que recebe muitos dedos durante o dia e nunca é limpada com um alcoolzinho, a sujeita sai esbarrando em todo mundo pra descer a escada fixa, tromba em mim três vezes e numa dessas a minha vontade é empurrá-la como fazia Nazaré Tedesco, mas sigo firme no meu propósito de não agressão. 
 
Lá vem o outro, me empurrando do lado contrário ao da sujeita de mochila, pelo menos um metro e oitenta de altura e duas “eu” de largura, com toda a delicadeza de um elefante. Um jeito nada educado de mostrar que também tá com pressa – vejam só vocês, pressa em São Paulo só ele né? - pra passar na escada e é claro, parar nela novamente, porque as pessoas não entendem – ou esquecem, ou tão pouco se fodendo - que estação de metrô não é lugar de passeio nem de corrida, são milhares de cidadãos nada do bem passando por ali com seus perfis óbvios e sua ausência de noção de convívio social. 
 
Lá vamos nós engolindo saliva pra deglutir a falta de semancol dos outros, nos isolando em fones com músicas altas ou qualquer entretenimento que façam o caminho passar mais rápido, sonhando em chegar logo no escritório onde ficaremos por oito horas sufocados no ar condicionado sonhando com o momento de sair e encontrar os mesmos cidadãos que agora já são do mau, que vão pisar esbarrar sacudir xingar e passar por cima de você, como se você não existisse. Licença, desculpa e obrigada são palavras proibidas nesse círculo involuntário de inimizades, onde já se viu mostrar um pouco de gentileza em meio a uma cavalaria de bípedes? 
 
Chego, passo crachá, chamo elevador, o primeiro homem que estiver a minha frente segurará a porta pra eu passar, pelos menos esse tipo daqui que também compra na Richards é um pouco mais gentil – embora nem sempre – e me dirá bom dia, talvez comentará sobre a notícia na tvzinha do elevador que é um quebra-gelo quase infalível exceto quando o que passa nela dá margem pra começarem a falar de futebol, porque esse povo quando fala de futebol berra e berrar num cubídulo 2 x 2 não é legal. Décimo andar, passo o outro crachá, tento abrir os olhos pra mostrar um pouco de dignididade, lavo as mãos, pego água e começo a saga de sete copos de café pra sobreviver a mais um dia. 
 
E amanhã? Lá vem amanhã, tudo de novo