Misantropia romântica

Thaissa Silva
Aug 24, 2017 · 3 min read
Arte de Jose Romussi

Aquela música tava na minha cabeça. Aquela, da Maísa Matarazzo. Não sei o motivo, a última vez que ouvi foi antes de nascer. É muito velha essa música!

Mas ela tava martelando e eu tinha que escrever sobre ela. Sobre ela não, mas sobre o que penso do amor. Desse romantismo açucarado. Açúcar derretido. Romântico melado.

Queria discorrer sobre preferir os poetas com bafos de álcool, romantismo de asfalto, amor urbano.

Mas disso vou ter que falar depois, outra hora, outro dia. Porque eu tive que pegar o trem mais cedo, da Berrini pra Fradique. Eu tive que pegar o trem mais cedo, às seis e pouco da tarde. Dezoito horas e malditos minutos. Quando o capeta abre os portões do inferno e os anjos degenerados invadem a terra.

Frio. Frio que assa a pele da gente. Eu com um casaco quentinho, muito quente, demais de quente. Ne me quitte pas na cabeça, já me deixando irritada.

Sabe o que é um trem lotado? Pois bem, aquele era lotado ao cubo. Andando numa velocidade quase negativa. Qualquer capivara à beira do Rio Pinheiros chegaria ao outro extremo infinitos minutos antes do trem.

Sabe o que é um filho-da-puta? É, então. Tinham uns seis exemplares do meu lado. Me chutando, empurrando, me fazendo corar de raiva. Bufando. Maísa na cabeça. Sem espaço pra tirar o casaco. Filhos-da-puta. Mudei sete vezes de música e não adiantava. Coloquei Chico Buarque, talvez o poeta alcoolizado devolvesse meu brio, mas pela primeira vez na minha vida, eu quis tapar a boca do Chico com silver tape.

Não dá pra amar em São Paulo. Não em horário de pico. Não com a axila pegando fogo. Não com os filhos-da-puta libertos do colo do tinhoso.

Até atravessar o que se assemelha ao buraco que leva ao Japão, também conhecido como Estação Pinheiros, nem sei o que tocava no fone. Eu queria matar. Talvez morrer. Um seguido do outro. Melhor pras manchetes de jornais. “Jovem irritada mata usuários do metrô e se mata em seguida”. E no texto da matéria “familiares e amigos diziam que ela parecia emocionalmente saudável”. Parecia.

Eu imaginei que explodia desconhecidos com tiro de bazuca e depois deitava nos trilhos pro metrô me picotar. Tamanha era minha raiva.

Amor passou longe de mim. Eu achava que tava espumando ou fosse cuspir fogo igual dragão. Eu achava que tava suando mas lembrei que não transpiro. Então, eu podia mesmo tá espumando. Até cuspindo fogo.

Um casal na plataforma. A menina tinha acabado de ganhar uma pelúcia. Eu queria arrancar a pelúcia dela e tacar com força na cara dos transeuntes renegados pelo rei das trevas.

Me repremi. Deixa o casal ser feliz, falei pra mim mesma.

Cheguei na Fradique. Quis chutar quem tava na minha frente e não me deixava sair. Prendi a respiração e fui.

Ar. Respirei de novo. Saí com a cabeça erguida pra tentar achar mais oxigênio. Ia voltando à sanidade.

Mas meu celular não tocava a música. Mudo, pausado. Isso não é hora! Preciso de música.

Subo um lance de escadas. Dois. Não lembro se foram três, e rua!

Foi só eu botar o pé na calçada, o vento bateu forte na minha cara e Bad Times Good Times começa estalando meus tímpanos. Essa música, sempre essa.

Segurei o sorriso pra não entregar de bandeja pra vida que meu mau humor tava indo embora.

Dobrei a esquina. Led Zeppelin me rasgando o peito, frio paulista me suturando a pele, vento frontal me voando os cabelos. Alguém devia tá me filmando. Daria uma ótima cena de clipe ou de filme. Eu sou boa de andar com confiança, fazendo meus pés beijarem o chão. Tipo Natalie Portman no final de Closer, só que sem um Jude Law à tira colo pra enfrentar minha loucura.

O sorriso não aguentou e saiu. Pinheiros cheio de um lado contrastando com o Pinheiros ermo de outro. Botecos recém abertos, pinguços no balcão, casais de mãos dadas, velhos com cachorros, eu com Robert Plant, vento no nariz e pé no chão. Quase voando.

Voltei a acreditar no amor. Meu amor bebum, urbano, cretino, pichado. Mas amor, sobre o qual discorro depois, outra hora, outro dia.

Cheguei no meu destino. Pedi um café, uma água. Abri o caderno e anotei: Ne me quitte pas é o caralho!

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"Moral da estória: a palavra é necessária diante do absurdo." - H.H.

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