Morna

Tem dias que a gente se adora. Geralmente me adoro quando tô bem maltrapilha e ridicularizada pela vida.

Tem dias que a gente tá morna. Convenhamos, o que é essa carranca tosca no lugar do rosto?

Eu vi um vídeo meu, ví vários na verdade. Eu gravo vídeos da minha aula de dança. Eu não vou nem entrar no mérito da minha postura torta e do meu pé tamanho 34 que é desproporcional não à minha estatura, mas à minha coxa. Não, não vou reclamar do meu corpo não, não vou entrar na pira da minha nada-formosa-curvatura da barriga, meu calo que eu poderia dizer sexual mas todos sabemos que é de cerveja. Não tô falando de beleza. Eu reparei na minha cara.

Que pessoinha enfadonha! Tediosa. Olha que cara cínica!

Eu sou cínica.

Se eu me encontrasse na rua eu ia ser a pessoa que eu ia ter vontade de dar um pescotapa.

Essa boca pequena sem propósito, esse nariz empinado sem personalidade e esse olho esbugalhado de quem tá surpresa com o mundo toda hora.

Que tédio!

E a voz? Rouca, ardida, voz irritante. Taquara rachada. Fala rápido, gesticula demais, garota azucrinada.

Faça-me o favor. Vê se se apruma, toma um jeito, para de falar assim.

Jeitinho mais insosso de protagonista da Malhação.

Semblante sem sal, sem açúcar, sem tempero, sem propósito. Não há quilo de rímel que vá dá mais vida pra sua cara de azedume. Pra não dizer cara de cu. Não adianta abusar de batom vermelho-biscate que você comprou no camelô da estação de trem, não, tá?

Levanta, arruma essa coluna. Estufa o peito, sua corpo-mole, parece bicho de goiaba. Sem graça!

Água fria pra ver se pega no tranco.

Três tapas na cara.

Acorda pra cuspir.