Ressaca

Acordei de ressaca, desisti de sair da cama. Me entreguei ao mal estar, à dificuldade de deixar os olhos abertos e cancelei o que tinha que fazer, embora não sem culpa, porque a culpa acompanha qualquer ressaca.
Comi um pedaço de pizza amanhecida, na cama mesmo, e pedi mais um pouco de desculpas pra mim mesma por não tá conseguindo reagir. Dormi. Acordei. Enrolei na cama por mais uma hora e pouco, perdendo meus minutos que podiam ser de sono olhando coisas inúteis no celular, prática comum de quem tá se sentindo um inútil.
Mas que diabos, eu não bebi ontem. Nem anteontem. Será que foi o vinho da quarta? Retroativo agora? Por que raios tô de ressaca?
Como numa epifania, entendi tudo. Era ressaca sentimental.
É, eu sei, tô sendo piegas. Mas acho que ser piegas hoje é a maior manifestação de rebeldia que pode-se fazer porque convenhamos, todo mundo tá pouco se lixando pra sentir alguma coisa. É verdade, às vezes acho que sou um alienígena porque sinto demais o tempo todo. Não tô dizendo que vivo triste pelos cantos, não, melancólica, essas coisas. É o contrário disso, vivo sentindo coisas com tudo que vejo, escuto, sinto cheiro. Feliz, eufórica, ansiosa, mania idiota de encontrar graça em tudo no caminho e parece que (quase) ninguém converge comigo. Conheço uma pessoa nova e tô lá sentindo coisa por ela — admiração, afeto ou ranço, mesmo — e é tanto sentimento que me envolve que às vezes penso que é desperdício. Do que me adianta sentir um negócio muito doido com um músico de rua e eu nunca mais vê-lo na vida? Passou, me faz ficar embriagada em plena terça-feira e me deixa aqui, lidando com essa ansiedade de carregar um sentimento porque não sei onde colocá-lo. Pelo menos o Augusto, garçom do boteco que mais frequento há cinco anos, corresponde ao meu sentimentalismo e me beija toda vez que me vê, embora eu saiba que ele faz isso com todo mundo.
Boca seca, estômago virado, dor de cabeça que não passa, gosto amargo na boca. Precisava me desafundar da cama. Levantei, abri todas as janelas pro vento entrar e já fiquei feliz, toda cheia de sentir de novo, com o sol lá, bem na minha fuça. É igual fumar um maço numa noite de bebedeira e acender outro cigarro logo que acorda. Te dá um baque que nossa, parece mesmo a morte. Não dá pra distinguir se seu coração tá disparado ou se tá parando.
Botei uma música pra tocar, dancei Jardins da Babilônia pelada na frente do espelho, mesmo com minha barriga protuberante, minhas celulites de estimação, a tatuagem que eu queria que tivesse em outro lugar, a minha cara de quem foi atropelada. Mas gostei, deixa aí meus defeitos que eles me formam. Tomei um banho bem gostoso, sentei embaixo do chuveiro, olhei minhas pernas brancas cheias de veias verdes. Dá pra tatuar um rio usando essas veias. Dancei mais um tanto embaixo d’água e deixei o último jato bem forte e bem frio pra ver se eu pegava no tranco.
Roupa confortável, cabelo preso no topo da cabeça. Vamos dar um jeito na casa. Arrumar a casa é minha melhor psico-analogia pra arrumar o que tá dentro de mim. Coloquei coisas no lugar, tirei o lixo do banheiro, peguei as toalhas pra lavar. Lavei os potes da cachorra, o quintal, espantei uma borboleta sem querer, pedi desculpas pra ela, limpei o varal que tava imundo, lavei a louça, achei o filtro do café que eu, teoricamente, tinha perdido, varri sala e cozinha… Preciso-escrever-preciso-escrever-preciso-escr… Abstinência dando o ar da graça, coração batendo na goela.
Água, muita água. Ressaca é foda. Gosto horrível na boca ainda, mas que merda é essa? Sintomas psicossomáticos revolveram acompanhar minha euforia criativa, então? Minha cabeça queimando que nem um cinzeiro velho cheio de bituca úmida.
Olhei pro remédio em cima da mesa, fez todo sentido. Que psicossomático que nada, isso chama Prednisona.
Entendido o motivo do mal estar, corticoide me revirando o estômago, senta pra escrever. Pronta pra outro porre já que o que eu achei que ia me derrubar não tinha derrubado.
Pode descer mais uma rodada, chefe, já entendi que nasci adicta de emoção.
