Meu lar é o botequim

O título desta primeira crônica vem da música que ouço no momento em que começo a escrever, com as bençãos de Noel Rosa e seu último desejo. Ouvir o poeta da Vila me faz pensar que ando pelas ruas de seu bairro relembrando amores e risadas. Piso numa esquina, lamento o fechamento do Petisco, volto ao tempo em que respirava um carnaval azul e branco no bar do Costa, vejo as partituras na calçada e, subitamente, Paulo Emílio dá o tom para que meu rumo seja a Tijuca.

Em alguma semana que passou eu tive um intervalo de aula, numa terça, que me permitiu almoçar no Madrid. Tinha frango na cerveja no dia e foi o que pedi. Aliás, recomendo ir ao Madrid comer frango na cerveja, ou devorar o milanesa com queijo, ou tomar qualquer batida, ou então passar no bar apenas para beber, olhar o quadro do Brizola na parede e quase chorar sabendo que tudo poderia ter sido um pouco do nosso jeito.

Em outra terça, saí do Centro, fui até a Tijuca, desci na Mariz e Barros, andei a Gabizo e entrei na General Canabarro. Nesta rua tem um pedaço do meu Rio e do Brasil no qual acredito, o Bode Cheiroso. A minha vontade era comer o angu com pernil desfiado, prato concorrente deste ano, mas a iguaria só é servida a partir das 15h. Como ainda eram onze da manhã, pedi o bife de panela com purê. Ainda não comi todas as comidas do Bode, mas a impressão que fica é que todas são boas. A rabada, por exemplo, não tem erro. Toda quarta tem rabada lá. Vá correndo provar, sem pensar duas vezes. Quem já provou sabe que vale a pena voltar para repetir o prato.

Parte de mim fica nos bares que frequento. E outra parte renasce neles. Quando fui ao Madrid, cheguei cedo e ainda não havia nenhum cliente. No Bode, nesse dia apenas uma mesa estava ocupada além da minha. Naturalmente ficou cheio em instantes. E no meio disso tudo, eu ando vendo que ir a um bar sozinha tem um valor que não é pequeno. Pra quem é mulher e gosta de boteco, então, tem um valor ainda maior — referente a liberdade e independência. É também um ato político, portanto.

Ficar sozinha no bar me lembrou que, certa vez, enquanto almoçava no Da Gema com um amigo, a mesa ao lado, com cerca de quase dez pessoas, não acreditava que um sujeito estivesse sozinho em outra mesa. Riam, em tom de deboche, da solidão alheia.

Não sabiam, para azar deles mesmos, que é a solidão que vira e mexe nos restaura, enquanto o copo esvazia para ficar novamente cheio, tal como o coração. E a vida, ela passa pela gente a cada gole. É bonito à beça.

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