Sede de sentido

Um dos livros que mais me tocou até hoje foi escrito pelo austríaco Viktor Frankl: Man’s search for meaning. Um psiquiatra judeu, que concluiu sua principal teoria médica dentro de um campo de concentração, ao observar que os condenados mais resilientes não eram os mais fisicamente resistentes, e sim aqueles que tinham um propósito de vida. O vazio existencial, naquele contexto, era mortal. Sobreviviam os que tinham algo pelo que viver — O corpo definha, a grandeza da alma resiste.

Me lembro de ler essa parte do livro diversas vezes, tentando imaginar quais histórias aquelas pessoas carregavam, que motivos os tornavam fortes a ponto de valer a pena não se entregar. “Quem tem um por que, enfrenta quase qualquer como” é a frase de Nietzsche citada algumas vezes pelo autor.

Li esse livro aos vinte e poucos anos, no auge da minha busca pelo que me move, incomodada por uma enorme inquietude interior que sempre me fez acreditar que minha missão era grande. A leitura, parte de uma série de estímulos fortalecidos por um senso de justiça social que me acompanha desde sempre, me encheu de coragem para abandonar o programa de trainee de uma grande empresa, juntar toda a pequena economia que eu tinha conseguido fazer e me jogar em algo que eu acreditava que seria um caminho sem volta.

Deixei o prédio na Av Paulista, o carro, as roupas de executiva mirim, a casa dos meus pais, a cama que eu não precisava arrumar, o salário já consideravelmente maior que a maior parte dos chefes de família do Brasil, o plano de carreira em marketing, e fui morar no Quênia — país da África subsaariana, abaixo da Etiópia e da Somália, acima da Tanzânia, costa do Oceano Índico — para fazer trabalho humanitário durante um ano.

Minha hipótese estava certa — era um caminho sem volta. Desde que retornei ao Brasil, todas as minhas decisões importantes foram tomadas com um olhar que vê o mundo através de uma lente diferente. A cidade onde fui morar, o emprego que decidi aceitar, o “passo para trás” na carreira para me especializar em desenvolvimento social, seguido do desafio de voltar a uma grande empresa, com a missão de potencializar mudanças através de uma grande corporação, acreditar na transformação de cultura, confiar nas pessoas e enfrentar tudo que vem na carona dessas decisões.

O mundo moderno é corrido, é cheio de intervenções, contas para pagar, pressões sociais, distrações inúteis e pessoas vazias. Chega a parecer uma prisão. Mas eu me sinto livre e resiliente por ter encontrado meu propósito e por buscar conquistas que transcendem a mim mesma.

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