Colorido

Apesar da cortina estilo “black-out”, adentrava meu quarto um fino raio de luz solar, que, por coincidência ou destino — para aqueles que acreditam que nada ocorre por acaso — incidia sobre meu rosto. A luz solar, depois de poucos minutos repousando sobre meus olhos, acordou-me de um sonho terrível ou, caso o leitor prefira, um pesadelo. Tal experiência sonâmbula não vem ao caso neste momento, pois, perto do que vivenciei nesse dia tão singular, perde sua magia. Quem sabe posso contá-la ao meu caro leitor em alguma outra ocasião mais propícia. Como de costume em todas as quartas-feiras, levantei da cama com aquele sentimento de pesar por ter dormido tarde e acordado cedo. Às quartas, uma antiga amiga minha vinha me visitar. Sempre no mesmo dia, uma vez por semana, há 7 anos. Na intenção de fazer um café, combustível matutino de todos os dias, pus a água para ferver em uma caneca. Qual não foi minha surpresa ao perceber que minhas mãos tinham tomado um tom avermelhado! Como alguém poderia ter sua pele tornada em tons de vermelho? Aquilo não era possível, pensei estar vendo coisas.Talvez a culpa fosse do meu sono exagerado nas manhãs de quarta. Mãos vermelhas… eu só poderia estar tendo alucinações por culpa das drogas que vinha usando ultimamente. A rotina andava mais difícil de aguentar que o normal. Lidar com perdas sempre foi um pouco complicado para mim. Às vezes, é preciso esquecer do sofrimento, ao menos por algumas horas. Pensando que lavar o rosto iria me despertar, caminhei em direção ao banheiro. Tomei um susto ao ver a minha imagem refletida no espelho. Parei. Olhei. Encarei no fundo dos olhos o sujeito do espelho. Impossível. Impensável. Irracional. I-qualquer-adjetivo. Um rosto azul?! Dessa vez eu tinha ido longe demais. Já tive alucinações de ver coisas que nem existem na minha frente, mas um rosto azul era a primeira vez. Imagine, meu amigo leitor, um sujeito com a cara azul e as mãos vermelhas. “Vou me atrasar!”, exclamei por um breve momento. Meu horário de entrada no trabalho era às 9h00. Como eu iria trabalhar nesse estado? Como aparecer diante dos meus colegas de escritório com um rosto azul e mãos vermelhas? O que diria meu chefe? Provavelmente todos ririam da ridícula figura que eu me tornara. “Já sei!” — pensei comigo mesmo. — “Um banho talvez limpe toda essa tinta agarrada à minha pele.”. Tirei meu pijama com certo receio do que iria encontrar. Confesso que não me assustei tanto quando vi meus pés verdes, minhas pernas amarelas, meus braços cor-de-rosa e meu peito preto. Já não sabia o que pensar. Todas as teorias que eu tentava formular em minha cabeça não faziam muito sentido diante da cena que presenciei. Cada parte de meu corpo havia adquirido uma cor diferente. Que pesadelo! Será que eu ainda estava dormindo? Talvez sim. Um banho resolveria meus problemas. Liguei o chuveiro na ânsia de esfregar com toda a força que havia em meus braços. Cinco minutos se passaram. Nada. Dez. Nem uma clareada. Quinze. Vinte. Vinte e cinco. Trinta-quarenta-cinquenta-uma-hora. Nada! Sem forças, desisti da árdua tarefa e acabei aceitando minha derrota diante da paleta de cores em meu corpo. Coloquei minhas roupas e tomei o rumo do escritório. Sem saber como agir, tentei fingir que nada havia acontecido com minha pele. Abri a porta evitando contato visual com meus companheiros. “Bom dia, meu amigo! Assistiu ao jogo ontem?”, perguntou-me o homem que se sentava ao meu lado todos os dias. Por um momento, travei. Não sabia o que responder diante de tanta naturalidade. Ele não havia percebido minhas cores ou fingiu não notar? Impossível não notar um sujeito colorido. Decidi fazer o teste. Cheguei perto de várias pessoas fiz algumas perguntas bobas buscando iniciar uma rápida conversa. Tentei olhá-las nos olhos, a fim de notar algum sinal de estranheza. Em vão. Ninguém parecia notar nada diferente em mim. Era como se estivessem acostumadas a essa figura minha. Para elas, eu continuava o mesmo. Não faz sentido! Eu estava totalmente diferente do que podia me lembrar desde a minha primeira lembrança. Como eles podiam agir normalmente na frente de um ser com partes do corpo coloridas?! Tive mais uma ideia. Aceitei meu destino e continuei meu dia torcendo para que acabasse logo. Nada muito diferente do habitual. Chegando em casa, corri para buscar o álbum de fotografias. Aquela seria a prova de que eu havia mudado de cor. Comecei olhando as fotos mais recentes e, para meu espanto, eu estava colorido! Meu rosto, minhas mãos e pernas, meus braços. “Agora eu enlouqueci de vez”, pensei. Fiz uma retrospectiva no tempo através de meus álbuns, até chegar a uma fotografia do dia do meu nascimento. Eu, todo branco. Mãos, pés, braços, tudo mesmo. Conforme avançava no tempo, notei que as partes do meu corpo iam adquirindo cores diferentes, de acordo com certas experiências que tinha vivenciado. Aos sete anos, havia aprendido a andar de bicicleta. Nesse mesmo dia, estava tão feliz com a nova habilidade desenvolvida e saí pedalando na maior velocidade possível. Um carro cruzara meu caminho e acabei levando a pior. Moral da história: braço direito quebrado. Depois desse dia, notei que quanto mais tempo passava, mais cor-de-rosa ele ficava. Entretanto, nunca havia percebido essa mudança de cores, ainda que nas fotos meus braços já não fossem mais brancos. Nunca me esqueci do dia em que aprendi a andar de bicicleta. Foi o começo de um processo de independência. Já não dependia mais de rodinhas para não cair. Aos quinze, apaixonei-me. Aos dezesseis, tive minha primeira relação sexual e conheci o álcool. Um mundo se abria para mim. Aos dezoito, aprendi que apenas amar não é o suficiente. Também comecei a entender como o mundo funcionava e o peso das responsabilidades. Li Sartre, Nietzsche e Saramago. Desisti dos deuses imaginários. Apaixonei-me pelo cinema. Li poesia, filosofia e história. Que mundo cruel! Conheci Marx e a luta de classes. Minhas mãos vermelhas. Como permitem que essas merdas continuem a acontecer? Nunca havia entendido. Assim, cansado de tanto tentar entender como as pessoas se acostumavam, eu me acostumei. Os dias passavam e pareciam ser todos iguais. De segunda a sexta, sábado e domingo. Tanto faz. Muito álcool para anestesiar a vontade de mudar. Em meu peito, o branco tornou-se preto. Para mim, continuava branco. Todo meu corpo. Eu era o mesmo de sempre e jamais mudaria. Até o fatídico dia em que me dei conta de minha condição colorida. Sem motivo específico ou explicação científica possível, acordei de meu sonho (ou coma). Atordoado. Perdido. Nesse imenso misto de cores em minha pele, descobri quem sou. Colorido.

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