Tá errado, Hortifruti

Crônica do cotidiano.

Foto gentilmente retirada do Google.

Nem são oito da manhã e o capitalismo voraz já me faz presenciar um momento de bizarro constrangimento nesse sábadão de labuta.

Pois eis que acordei e, no caminho para a redação, tenho a altruísta ideia de entrar no Hortifrutti e comprar pães de queijo para a equipe que sairá em externa comigo para Bangu logo cedo. Merecem. Merecem tanto que chego 7h54 e, diante das portas fechadas, espero até oito em ponto, hora de entrada.

Constragimento um, o menor, fico eu e mais dois pares de clientes em potencial olhando para as portas de vidro transparente. Lá dentro, funcionários a postos esperando, luzes acesas, computadores e caixas ligados, tudo em seu lugar: o chuchu, a laranja, a mexerica e a pocã. Por que diabos não se abre a loja logo? Tem que esperar oito em ponto. Aposto que as ações da hortifrutti caem copiosamente se eu comprar uma uva itália e um punhadinho de agrião enquanto o relógio marcar sete e cinquenta e oito. Incrível é que, na burocracia, até o lucro pode esperar.

Sete e cinquenta e nove… OITO! O gerente com cara de mau vai abrindo a porta enquanto, pânico meu, uns vinte funcionários formam um CORREDOR. Porta inteira aberta, eu e mais quatro esperando para entrar, e, na maior cara de bunda, aquela em que entendemos e perdoamos, os funcionários passam a CANTAR, batendo palminha uma música de boas vindas, envolvendo animação, “nossa missão é atendê-los”, “alimentos saudáveis”, “felicidade em recebê-lo” e mais um par qualquer de outras mentiras sinceras.

O corredor cantante cria uma situação rara, o tal do constrangimento duplo. De um lado e de outro, ninguém queria viver aquela situação ali, nem cliente, muito menos funcionário. Nem o sábado da manhã existe para presencial tal patética cena. E assim se segue, os funcionários cantando em corredor, animação contagiante, e os clientes chegam a ter VERGONHA DE ENTRAR. Por um bom quase minuto ficamos parados na calçada, todos, sem coragem de adentrar o recinto, afinal, para isso é necessário passar no meio do corredor musical do proletariado. Não é que a cantoria rola e você passa do lado. Ao passar no centro do corredor, de certa forma, durante alguns segundos, aquela manifestação pífica é só para você. Passaria, se pudesse.

Uma primeira senhorinha cria coragem e, cabeça baixa olhando para o chão, atravessa. Vou no galope dela, mas cabeça alta, sem saber se sorrio constrangido, se dou bom dia já sabendo que eles não estão tendo um. Passo. Sobrevivo.

Pior que o corredor da alegria, só mesmo as piadinhas infames publicitárias da loja.

Se há algum patrão lendo este texto, meu conselho: desrespeite as leis trabalhistas, não pague 13o, não assine a carteira, ignore horas extras, não pague o vale transporte, mas nunca, NUNCA bote seu funcionário para cantar em corredor para clientes. Imagino eu que isso crie um ódio inimaginável pelo SISTEMA. Getúlio Vargas não fez, mas deveria ter garantido o direito de não querer ser palhaço entre as garantias laborais.

Abandonei o corredor da felicidade triste e segui para comprar meu pão de queijo. Na volta, no caixa, um dos funcionários cantantes me atendeu, mal, como sempre. Não deu bom dia, não olhou pra minha cara. Foi meu primeiro momento sinceramente feliz do dia.

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