O desespero do sucesso aos 20 e poucos anos

Ando conversando com uma série de pessoas em torno dos seus 20–25 anos, aquela idade que muitos consideram de ouro para o crescimento e desenvolvimento pessoal. E a medida que você para pra realmente entender a maior parte das queixas dessa geração (e eu me incluo nela), percebemos como a necessidade de muitas delas é a mesma: sucesso. Mas não é qualquer sucesso, é o sucesso quase imediato, o sucesso pra amanhã, o sucesso antes dos trinta anos de idade.

É engraçado que talvez estejamos diante da geração que tenha alcançado sucesso profissional mais rápido do que todas as outras anteriores. Não é incomum vermos um jovem de 23 anos já ganhando salários que seus pais levaram 40 anos de suor pra conseguir.

É mais comum do que se pensa. E ainda sim, isso não satisfaz.

Estamos chegando ao ponto onde a realização é não termos limites na conta bancária. Não queremos precisar dizer não pro vestido novo ou pro carro do ano. Confundimos liberdade com poder dizer sim pra tudo.

Gostamos do que conquistamos, mas queremos ser milionários antes dos 30 anos. Não interessa ser depois dos 40 anos, tem que ser rápido, ano que vem se possível.

Nesse bolo, vemos as startups e o desejo de empreender como uma das principais ambições dessa geração, afinal, esse seria o atalho pro enriquecimento precoce. Estamos cada vez mais acostumados com a ideia de jovens milionários antes dos 30 anos através de um aplicativo que deu certo. Isso não seria mais uma total exceção, seria algo possível. Não foram um ou dois que conseguiram. Foram alguns… e quando olhamos para eles, nos sentimos fracassados por não estarmos conseguindo isso.

Todo mundo já teve uma ideia que sabe que poderia lhe tornar milionário, mas alguém foi lá e criou antes.. e essa frustração é que corrói. O arrependimento de ter perdido a oportunidade dos sonhos pra alguém eventualmente mais despreparado.

O choque com o mundano

Na segunda feira, temos a sensação de que estar em um emprego ‘tradicional’ não irá nos levar ao crescimento que queremos. Ai começamos a fazer cálculos: será que se eu continuar aqui por 5 anos conseguirei ser bem sucedido? E a resposta nunca é a que queremos, pois somos pé no chão e conseguimos mapear o cenário futuro: na maioria das vezes isso não nos levará até os sete dígitos na conta bancária. Pelo menos não na velocidade que queremos. É quando a nossa mente nos trai e constrói um abismo entre o desejo de atingir objetivos maiores, e a realidade que podemos acessar nesse momento.

O filme ‘Prenda-me se for capaz’, mostra a ideia de alguém que queria ser importante acima de qualquer coisa

Olhamos pro lado e vemos pessoas que consideramos geralmente mais medíocres que nós e pensamos: ‘sou melhor que esses caras, mereço ser mais bem sucedido antes deles para provar que não sou tão comum e mediano quanto pensam’.

É ai que aquele vídeo sobre como ‘hackear a alta performance’ e se desenvolver dez anos em um, começa a se tornar a solução que precisamos. Parece ser a ferramenta que precisamos para chegar lá. Então fazemos esse curso, lemos os livros indicados, entendemos como criar hábitos, como usar nossa mente no potencial máximo, que temos o mindset adequado e acreditamos que agora conseguiremos atalhar esse caminho. E nosso dia a dia começa a se tornar uma obsessão, tudo tem a ver com chegar ao sucesso antes dos trinta.

Depois de tudo isso, olhamos para o que estamos fazendo e a ideia de empreender parece cada vez mais viável, interessante e necessária: “Agora estou pronto pra brilhar”.

Nesse momento pedimos demissão pra fazer algo que transforme o mundo ou ‘que faça sentido’, colocando em prática tudo que aprendemos com os gurus, afinal, aprendemos tudo o que precisávamos sobre fanpages no Facebook e sobre como trabalhar em pé vai nos fazer hiper produtivos e focados. Muitas vezes, ativamos nosso lado altruísta e mesmo antes de obtermos sucesso, começamos a ensinar essa teoria para outros. Ou seja, lemos tudo o que pudemos sobre o assunto, e agora queremos obter sucesso ajudando outras pessoas a tentar obterem, mesmo que ainda não seja nossa realidade.

É como tentar ensinar outra língua para alguém, mesmo antes de falarmos ela.

Ok, mas e ai?

A pergunta que nos inquieta é: sabendo disso, como evitar que esse desejo me consuma e vire uma obsessão?

Uma das frases que mais me ajuda a pensar sobre o assunto, foi atribuída a Phillip C. McGraw e diz: “A vida é uma maratona, não uma corrida de 100 metros” (essa seria a tradução mais provável da frase). Se tomarmos ela com um pouco de verdade, veremos que a linha de chegada que colocamos para nós não necessariamente é a que realmente precisa ser, e muito provavelmente nos fará mais infeliz do que nos empurrará pra fora da zona de conforto.

Não podemos confundir comodismo com tranquilidade de continuar crescendo. Precisamos aprender a desenvolver paz de espírito no crescimento, ao invés de confundir isso com acomodação e preguiça. Nossa evolução não precisa vir acompanhada de ansiosidade extrema para que tenha mais valor, e essa talvez seja a maior dificuldade por trás da busca por esse sucesso.

Se não ficarmos milionários até os 30 anos sabe o que vai acontecer? Nada.

E se não ficarmos até os 40 anos? Também não vai acontecer nada…

E nem por isso seremos piores que os que conseguiram chegar lá e fazer milhares de fotos no Instagram.

Aprendemos a admirar as montanhas altas desde pequenos, aprendemos que quem chega alto é mais valorizado do que os outros, mas ninguém nos explicou como é o dia a dia da escalada. Que se provavelmente tentarmos pegar atalhos, muitas vezes isso pode inevitavelmente nos custar muito tempo ou a própria vida. Que talvez o ideal seja justamente dar um passo de cada vez, e melhorar a técnica e o aprendizado pra melhorar a passada. Aliás, é provável que tenhamos escutado isso, mas preferimos não ouvir, porque se alguém conseguiu, eu deveria conseguir, certo?

Querer chegar no topo da montanha não é o problema, afinal, muitos querem, o problema é gastar tanto tempo procurando um atalho, que gastamos mais tempo discutindo esse plano do que realmente subindo.

Que tenhamos menos ansiedade, mais sabedoria e mais resiliência pra viver o dia a dia.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Thales Duarte’s story.