O PARTIDO COMUNISTA REVOLUCIONÁRIO VOLTAICO E A SITUAÇÃO EM BURKINA FASO

INTRODUÇÃO

Segue o link do texto “Há uma revolução acontecendo na Burkina Faso dirigida pelo Partido Comunista Revolucionário Voltaico? ” e a continuação do texto, criticado no presente artigo:

(https://www.facebook.com/AcaoAntirrevisionistaMLM/posts/1972279583000271)

(https://www.facebook.com/AcaoAntirrevisionistaMLM/posts/1975111326050430)

O texto publicado pela “Ação Antirrevisionista — Marxista-leninista-maoista” se propõe a apoiar a insurreição em Burkina Faso, mas ironicamente diante das primeiras adversidades em encontrar informações sobre o processo revolucionário de um país que tem limitados meios de comunicação para com o exterior eles se colocam na fileira oposta, questionando e negando a participação e direção do PCRV nas manifestações que culminaram na Revolução Democrática de 2011–2014. A falta de comprometimento com a divulgação dos eventos em Burkina é notória pelo fato de que o processo levado a cabo pelo Partido Comunista Revolucionário Voltaico contradiz quase todas as fórmulas tidas pela seita como universais e inquestionáveis, reafirmando o marxismo-leninismo e a insurreição revolucionária do proletariado.

A razão para o apoio deles então seria baseada na palavra de ordem que toda rebelião é justa. Apesar de soar coerente, esse raciocínio é esquerdista pois se levado às últimas consequências seríamos orientados a apoiar as rebeliões da primavera árabe, as da Venezuela contra Maduro, as rebeliões contrarrevolucionárias contra legítimos regimes socialistas do século XX, tão somente por representar os interesses de uma parcela descontente numa sociedade fragmentada em classes. Uma rebelião conduzida por burgueses — que consideram “justo” o seu direito de explorar — contra um regime revolucionário também seria justa, mesmo se tratando de uma minoria opressora se opondo aos interesses da maioria expressos em uma forma de regime político? Está aí uma posição anarquista, baseada em princípios eternos e que carece de fundamentos científicos, advindos da análise dialética das relações entre as classes da sociedade tratada em questão.

UM PARTIDO REVOLUCIONÁRIO

Após a morte do revolucionário patriótico Thomas Sankara, assassinado em 15 de outubro de 1980, pelo reacionário Blaise Compaoré, o país mergulhava em uma onda de recessão de todo o progresso político e social promovido pelos processos democráticos do final dos anos 70.

O plano nacional de desenvolvimento de Compaoré era a política neocolonial de extração e venda de commodities, não é à toa que a maior renda de Burkina Faso vem da venda do Ouro bruto, o mau desenvolvimento da indústria, as secas, fome e pobreza fazem de Burkina Faso um país com um índice de pobreza generalizada.

Após esse breve resumo da situação econômica de Burkina Faso, podemos ter uma leve noção de como o povo voltaico vive sob a pressão constante da pobreza gereal e do imperialismo.

Por essa razão, que no dia 1 de outubro de 1978 foi criado o Partido Comunista Revolucionário Voltaico. Apesar de estar inserida dentro de um país onde beira ao absolutismo, guerras entre clãs, xenofobia, intervenções imperialistas — particularmente da França — o Partido, guiado pela ideologia Marxista-Leninista, mesmo sob toda a repressão, manteve-se em um trabalho paciente e progressivo.

Hoje o Partido tem atuação em todo solo nacional de Burkina Faso, é o principal dirigente da classe trabalhadora de Burkina Faso. Possuem dois jornais em três línguas diferentes, Bug-Parga, Takisse e Jewo-Jema, todos esses nomes significam, em nossa língua, “A Centelha”, mesmo nome do jornal bolchevique Iskra. Também faz uma publicação na língua francesa para as forças de defesa nacional, para a educação política dos mesmos, chama-se Le Clarion[2].

Isso mostra que o Partido possui uma base sólida para a publicação de seus materiais, livros e resoluções. O povo aguarda sempre impaciente por suas notas, debates, e materiais sobre a vida política do país. O PCRV tem ao seu lado a juventude mais combativa e revolucionária do país, a União da Juventude Comunista Voltaica (UJCHV) e a Organização da Juventude Democrática (ODJ), ambas carregam as orientações do partido entre a juventude e os estudantes do país, que também tem seu próprio jornal, com intuito de levar os estudantes de Burkina Faso a luta, o jornal “O Clarté”.

Como se não bastasse, o partido é dirigente e organizador da maior central sindical do país, a Confederação Geral do Trabalho de Burkina (CGTB), o Movimento Democrático e Revolucionário, o Movimento Voltaico dos Direitos Humanos e a União Geral Estudantil de Burkina Fasso (UGEB)[3].

Como podemos ver, o PCRV é um partido que atua em todos os meios da luta popular nacional, é o dirigente máximo das frentes de luta do país. E, por incrível desonestidade, o autor do texto citado na introdução tem a ousadia de afirmar:

“Tenho dúvidas se ele [O Partido] de fato ainda existe, sua página é inativa, não há nenhuma atividade e ao clicar em links para mais informações sobre o partido, somos direcionados para páginas inexistentes. ” - Há uma revolução acontecendo na Burkina Faso dirigida pelo Partido Comunista Revolucionário Voltaico?

Como já foi mostrado aqui, o partido tem atuação em diversas frentes de luta, movimentos de massa, possui logística para a divulgação de quatro tipos de imprensa popular em um país com 19 milhões de habitantes, é completamente incabível dizer que o partido não existe por seu site não ser atualizado.

Ao contrário do que afirmam os maoístas oportunistas, que não possuem o mínimo de compromisso com a verdade, o PCRV ainda sim continua atualizando o mundo sobre a luta do povo Voltaico por sua libertação.

O PCRV é integrante da CIPOML, Conferência Internacional de Partidos e Organizações Marxistas-Leninistas, maior organização internacional marxista-leninista que atua hoje e através do órgão de propaganda, a revista anual Unidade e Luta.

Em nenhum ano o partido, absolutamente nenhum ano, o PCRV deixou de informar-nos sobre a situação nacional e as perspectivas para a luta em Burkina Faso.

É de importância primária ler a revista Unidade e Luta para conhecer o PCRV, porém, o autor do texto nem se esforçou para pesquisar a fundo, fazendo um texto repleto de preconceitos e conclusões sem análise aprofundada sobre o tema.

Por conta disso, recomendamos aos leitores lerem as revistas Unidade e Luta, assim entenderão não só Burkina Faso e o PCRV, mas dezenas de outros partidos e organizações integrantes da Conferência.

Falaremos, brevemente, sobre as organizações de massa na qual o PCRV possuí o papel dirigente:

1 — Confederação Geral do Trabalho de Burkina (CGTB)

A Confederação Geral do Trabalho de Burkina (CGTB) foi criada em seu Primeiro Congresso em 29 de outubro de 1988, porém seu trabalho começa com a Frente Sindical de Burkina Faso em 28 de outubro de 1985, organização feita pela linha revolucionária dirigida, desde o princípio, pelo PCRV.

A Frente Sindical de 1985 tinha o intuito de esclarecer aos trabalhadores que não seria através de um golpe de estado, realizado por Thomas Sankara, que os problemas da classe operária se resolveriam, somente através da revolução proletária, dirigida pela ideologia Marxista-Leninista com o Partido Comunista à frente da classe operária.

Por essa razão, os sindicatos filiados à Frente Sindical eram ativamente perseguidos pelo governo, através do Comitê de Defesa da Revolução — CDR, cuja coesão era feita pelo Partido Independente Africano — PAI, ou seja, o Thomas Sankara não se alinhava à ideia de uma revolução socialista leninista, por dizê-lo em palavras, mas em atos, perseguia os revolucionários, sindicalistas comunistas.

Hoje, a CGTB tem atuação política em todo o território nacional, é o principal dirigente central dos sindicatos de Burkina Faso, sendo dirigida pelo grande revolucionário Voltaico Tolé Sagnon, que é reconhecido por todo território nacional como um grande sindicalista revolucionário.

A CGTB, foi o carro chefe para as mobilizações em 2011 contra o aumento dos preços da alimentação, que abriu o processo revolucionário em Burkina Faso, e também, para foi o movimento de massa de vanguarda pela insurreição de 2014[4].

Se mantém, atualmente, organizando diversos sindicatos para a Luta de Classes em Burkina Faso, elevar a consciência para a revolução socialista e construir a insurreição revolucionária.

O camarada Tolé Sagnon expressa muito bem como funciona a relação da CGTB com o Partido:

“A CGTB optou, efetivamente, pelo sindicalismo revolucionário. Isso não significa que a CGTB coloca uma Muralha da China entre o sindicalismo e a luta política. Essa opção sindical está ligada a luta pela melhora das condições de vida do nosso povo e do também do trabalho dos trabalhadores na luta contra a exploração do homem pelo homem. Ele liga, conjuntamente, a luta econômica e a luta política, porque as duas tem um efeito conjunto. No entanto, a CGTB reconhece a supremacia do partido político sobre o sindicato revolucionário, o sindicato não pode reivindicar a conquista do poder político, do poder do estado. Quem deve fazê-lo é o partido político, a fim de implementar o seu programa de governo”- Tolé Sagnon, Diferenciado em Todos os Sentidos!

Uma opinião um tanto Marxista-Leninista, não?! Pois bem, continuemos

Para termos uma noção maior da capacidade de luta da CGTB, precisamos entender uma conjuntura histórica diferente de Burkina Faso em comparação com o Brasil. A CGTB não possui a imagem pelega assim como a Força Sindical no Brasil, por exemplo, seus documentos, que podem ser encontrados em seu site, possuem uma análise com o único intuito de desenvolver a luta de classes no país, não tendo ilusão nenhuma com os governos passados, atuais e futuros, o objetivo da Central, hoje, é fazer uma revolução socialista.

2 — União Geral Estudantil de Burkina Faso (UGEB)

A União Geral Estudantil de Burkina Faso (UGEB) foi criada em 1974, sendo, desde o seu nascimento, uma entidade importante para o processo de lutas de Burkina Faso. O PCRV conseguiu estabelecer-se na direção política da entidade entre os anos de 1978 até 1981[5].

Um dos heróis históricos dos estudantes de Burkina Faso é o secundarista Dabo Boukary, estudante heroico, liderança estudantil na luta contra Blaise Compaoré que desapareceu há mais de 27 anos, após uma manifestação brutalmente reprimida pelos agentes do estado.

O atual presidente da UGEB, Patrice Zoehinga, já afirmou que a entidade não vai descansar até que os restos mortais de Dabo Boukary sejam encontrados.

Atualmente, a UGEB possui trabalho em todas as 4 universidades de Burkina Faso e promove para os estudantes: Formação política, incentivos estudantis, cursos de Taekwondo[6] entre outras atividades de formação militante entre os filiados.

Os camaradas leitores podem exigir provas mais concretas que de fato a UGEB se encontra sob a revolucionária direção do PCRV, por conta disso, citaremos a seguinte passagem[7]:

“A UGEB, influenciada pelo Partido Comunista Revolucionário Voltaico, certamente conduziram os pregos colocados por seus mentores (PCRV). Paradoxalmente, prevaleceram as boas relações entre os estudantes e a UGEB durante as manifestações contra o despejo das cidades universitárias, deixando dúvidas, para o governo, sobre o real objetivo e análises dos poderosos da UGEB.

O PCRV, difamador de planos estatais, até mesmo de Thomas Sankara. Não é favorável nem as eleições e nem a golpes. Muito pelo contrário, defende uma revolução popular. ” - A UGEB E SEU PAI ESPIRITUAL, PCRV

Bom, já foi colocado aqui que a UGEB é sim centralizada pelo PCRV, e as atividades que ela dirige para a formação revolucionária de seus filiados apenas mostra a capacidade logística do Partido em promover a luta em diversas formas.

HISTÓRICO DE LUTAS

Logo no início do texto, o autor afirma:

“A questão é que essa revolução, ao que tudo indica, foi INVENTADA”.

Bom, além do claro não conhecimento da história, o autor faz uma afirmação perigosa e com uma séria convicção, porém sem pesquisa alguma. O autor não sabe que em 2014 houve uma insurreição popular em Burkina Faso, mostraremos a seguir qual o processo dessa insurreição, os motivos dela, a participação ativa do PCRV nesse processo que ficará marcado para a história do Movimento Comunista Internacional.

PRIMEIROS ANOS E ANTECEDENTES REVOLUCIONÁRIOS

Desde o início de sua vida militante, o PCRV atua em Burkina Faso pela libertação de seu país, estabelecimento da sociedade socialista e a caminhada para o comunismo, até mesmo nos anos de Thomas Sankara.

De fato, o PCRV teve uma atuação ativa durante seu governo, denunciando a burguesia nacional em sua gestão, a impossibilidade do poder popular com a burguesia no partido da classe operária.

E, de fato, o partido chegou a ser, já naquele tempo, dirigente da CGTB, e da UGEB, o Partido, inicialmente, conseguiu estabelecer-se na hegemonia do movimento estudantil de Burkina Faso entre os anos 1978 a 1981, como explicamos acima[8].

Durante os anos Thomas Sankara, fora criada o Comitê de Defesa da Revolução — CDR. Esses deveriam, teoricamente, defender a “revolução”, porém a prática era o oposto, o CDR era o maior agente da reação no governo Thomas Sankara[9]. Eliminava diretores sindicais, fechava sindicatos, capturava e torturava militantes do PCRV, como, por exemplo, Tolé Sagnon, recolhia panfletos do Partido.[10]

A análise do Partido era a que em 1983 não houve uma revolução, houve, em seu lugar, mais um golpe militar em Burkina Faso. E de fato, não fora nenhuma revolução socialista, como muitos marxistas românticos dizem.

A revolução marxista é primeiramente dirigida pela classe operária, através do Partido de vanguarda, ou seja, o partido comunista onde há o Marxismo-Leninismo como guia ideológico para a revolução. Podemos dizer que Thomas Sankara era um patriota, combatente revolucionário, porém não podemos dizer que sua subida ao poder fora genuinamente marxista.

Muitos dizem, no mundo todo, que Thomas Sankara era um “Che Guevara Africano”, essa é uma afirmação perigosa. Thomas Sankara, historicamente falando, se encontra no lugar de “Hugo Chavez Africano” pois os mesmos estabelecem uma relação maior com os militares do país, o que, do ponto de vista do Marxismo-Leninismo, está incorreto para se dizer que é uma revolução proletária. Pois sob a perspectiva da luta de classes não foi assentada as bases necessárias e constitutivas do poder popular para a edificação do regime político da ditadura do proletariado.

Não partidários da “revolução nacional”, a tese do PCRV era a de que a “revolução nacional” era um caminho progressista, mas que não serviria para acabar com os problemas políticos e econômicos que rondam a classe trabalhadora durante o capitalismo. Portando, a “revolução” Sankarista não era nada mais que uma “revolução” democrática.

E de fato, a história mostrou o que o PCRV já alertara a população, Thomas Sankara morrera, fuzilado por Blaise Compaoré que, pela falta de prática leninista, não foi reprimido pela ditadura do proletariado, mesmo com práticas reacionárias.

A LINHA PARA A REVOLUÇÃO SOCIALISTA É A MASSIFICAÇÃO DO PARTIDO DE VANGUARDA

No decorrer dos anos, o PCRV torna-se um dos partidos mais ativos no grandioso continente africano. Torna-se um partido amplamente conhecido entre as massas trabalhadoras e estudantes de Burkina Faso.

Assim afirma Halidou Ouédraogo Jeudi, ativista patriota:

“O PCRV é um partido clandestino, porém, ainda sim é conhecido por todos em Burkina Faso. Sabemos que o PCRV, através de suas declarações, postura, é apreciado, por sempre se manter em uma posição responsável. O PCRV é um Partido responsável, pois é desenvolvido por pessoas responsáveis. Tendo contribuído, dentro do Movimento Estudantil, com discussões nutridas e embasadas sobre como gerir nossa pátria, a África e o Mundo. ” - Halidou Ouédraogo Jeudi: Quando fará sua Revolução, Camarada?

Ora, como é possível dizer que o Partido não existe, sendo que o partido, como disse Halidou Ouédraogo, ativista Voltaico, é um partido conhecido em todo o território nacional? É preciso ser muito desonesto intelectualmente para afirmar tal atrocidade ideológica com tanta pouca informação.

Irônicos o fato de que, no próximo — e tão péssimo quanto o primeiro texto — os oportunistas afirmam:

“A movimentação do ano anterior iniciou uma nova onda de credibilidade dos movimentos de oposição ao governo de Blaise, que inclusive moveu as centrais sindicais a apoiarem o programa do PCRV. Não, não houve tomada de centrais sindicais, houve um apoio das centrais sindicais ao plano do PCRV em 2013 e 2014, onde eles assumiram em reunião que o programa do PCRV era o mais adequado, isso tem algum mérito, mas não foi uma tomada de centrais e sim um posicionamento a favor deles tomado pela central sindical SYNATIC.” - Ainda Sobre o Partido Comunista Revolucionário Voltaico e a “Revolução” em Burkina Faso

Incrível como são oportunistas, uma hora o PCRV não existe outra hora existem, porém são irrelevantes entre as massas, qual será a próxima desculpa para não assumir que um partido anti-maoista é a vanguarda de um país de tradições revolucionárias e heroico ao provocar uma insurreição nacionalmente.

Já vimos aqui, anteriormente, que o PCRV possui a direção da maior Central Sindical do país, CGTB, e das duas maiores entidades estudantis do país, UGEB, sob a liderança do camarada Patrice Zoehinga e a ODJ. Ora, os oportunistas dizem que o PCRV apenas teve uma participação mínima, pois “o marxismo estava na moda”, que não teve papel dirigente. Porém, se esquecem de que esses mesmos sindicatos “influenciados” pelas ideias do PCRV são ligados à CGTB, onde a direção máxima é do Partido Comunista Revolucionário Voltaico.

Aparentemente, vemos, que os maoístas não cansam de estar errados, segue a citação da Sankarista, Maria Malagardis:

“O Partido Comunista Revolucionário Voltaico — PCRV, abertamente “Stalinistas”, foi criada para se esconder entre a colônia. Até agora, oficialmente, ninguém conhece seus membros ou até mesmo seus líderes. No entanto, os poderosos sindicatos de Burkina Faso obedecem-lhe fielmente.” - Maria Malagardis, Thomas Sankara, o Coração e a Alma da Revolução de Burkina Faso

Uma afirmação deveras agressiva da Sankarista, porém, mostra, intrinsecamente, como o PCRV é presente nos sindicatos. Ora, qual partido maoísta hoje, tem tal privilégio de ser citado como “guiadores de sindicatos”? Para falar a verdade, esse é um processo no qual todos os Partidos Marxistas-Leninistas sofrem, o problema de dirigir sindicatos e ser o partido mais ativo e mais próximo das massas trabalhadoras.

Incrível o nível de tal oportunismo, chega a ser completamente alienante a falta de informação que os maoístas fazem questão de divulgar com tanta propriedade.

Os oportunistas, mencionam o sindicato SYNATIC, o que eles não sabem, ou sabem e deixam de mencionar por oportunismo, ou não sabem porque não fazem o mínimo esforço de mostrar a verdade, pois bem, continuando, o SYNATIC já declarou em 29 de setembro de 2014[11]:

“Após os debates realizados, concluímos que apenas o Partido Comunista Revolucionário Voltaico (PCRV) pode tirar Burkina Faso da estagnação econômica e o subdesenvolvimento” - Nobila Ouédraogo, SYNATIC Emula seus Militantes

E mais adiante:

“Esse deve ser o sindicato anti-imperialista, o sindicalismo revolucionário são, em resumo, os trabalhadores e militantes da categoria desempenhando verdadeiramente seu papel revolucionário” - Nobila Ouédraogo, SYNATIC Emula seus Militantes

Mais claro que isso impossível, não há mais o que comentar sobre essa passagem, a única resposta possível dos maoístas é um bom e velho malabarismo e, ou, um bom e velho texto com afirmações sem fontes seguidos de oportunismo e mal-caratismo.

Para além disso, os maoístas afirmam que não houve a “tomada” de centrais sindicais, o que eles não entendem é que a CGTB é uma criação do PCRV, como explicamos acima.

Está mais que provado que o PCRV existe, luta e, além de lutar, coordena a luta em toda Burkina Faso, através dos movimentos de massa que o mesmo desenvolve desde os anos de 1980. Podemos dizer que o texto oportunista, produzido por revisionistas maoístas, não passa de um grande achismo.

Agora, nessa etapa de nosso texto, precisamos divulgar uma luta desconhecida pelos comunistas atualmente, muitos camaradas não conhecem a situação atual de Burkina Faso, portanto, iremos apresentar para os camaradas, de forma sucinta, através de um acúmulo de material, vindas da Revista Unidade e Luta.

O ESTÁGIO ATUAL DA LUTA DE CLASSES EM BURKINA FASO

O momento político atual em Burkina Faso é um momento de disputa política intensa, é o momento da luta de classes aberta para a luta revolucionária. Após essa afirmação, devemos, para melhorar o entendimento dos leitores, fazer, o que os maoístas não fazem, uma análise histórica.

Nesse momento, estaremos usando a revista Unidade e Luta 30, 31, 32 e 33, recomendamos que leiam.

O momento político atual de Burkina Faso pode ser caracterizado em quatro períodos:

  1. A Luta Popular de Burkina Faso contra o aumento das condições de vida;
  2. Luta pelo fim da Autocracia do Clã Compaoré;
  3. Fim do regime, golpe militar e resistência;
  4. Fim da ditadura e convocação de novas eleições, contra o crescimento do Jihadismo, banditismo e construção dos comitês de autodefesa populares.

A LUTA DE BURKINA FASO CONTRA O AUMENTO DAS CONDIÇÕES DE VIDA

No ano de 1991, uma medida tomada por Blaise Compaoré, a mando do imperialismo francês, condicionava Burkina Faso a um plano nomeado de “Estratégia de Aceleração do Crescimento e Desenvolvimento Sustentável — SCADD.”

Esse plano culminou em:

  • Selvagens privatizações de empresas estatais e setores inteiros da economia nacional e desolação para milhares de trabalhadores que foram demitidos;
  • O Estado perde o controle de setores sociais, houveram privatizações da Saúde, da Escola e da Universidade, o que excluía milhões de cidadãos do direito à educação e a saúde;
  • O saque dos recursos naturais do país com o ouro, manganês, algodão e outros produtos pelos monopólios e imperialistas da França a partir do Clã Compaoré e outros membros do Exército;
  • O congelamento dos salários o que, com o aumento da inflação, jogou milhões de trabalhadores e cidadãos na miséria incalculável e alguns sem-teto;
  • Durante anos, as empresas estatais como ONEA, SONABEL e a LONAB, funcionavam como caixa dois para o esquema de Compaoré de enriquecimento pessoal, o que torna o investimento em acesso a electricidade e água irrisório; isto que levou à grande crise de eletricidade e água que atingisse Burkina Faso;
  • Durante este período, os clãs no poder — Principalmente o Clã Compaoré — aumentam suas riquezas a partir da pilhagem e acúmulo de grandes fortunas diretamente ou através de burocratas ou agentes nomeados por eles. Assim que surgiu figuras como Alizet Gando, Obouf, Gaddafi, Kanazoé Inoussa, Guiro Ousmane, etc.

Em decorrência desse plano, podemos dizer que desde 2008 haviam motins de famintos em Burkina Faso, essa crise condicionou as massas a medidas revolucionárias pelo fim do regime de Blaise Compaoré.

De fato, esse período histórico do país fora noticiado até mesmo pela mídia reacionária brasileira “O Estadão”, onde menciona o dirigente revolucionário Tolé Sagnon como dirigente da CGTB. Pois bem, continuando, quem convocou as manifestações contra o aumento das condições básicas de vida em Burkina Faso foi, nada mais nada menos, que a CGTB e a Coalizão Nacional Contra os Altos Custo de Vida (CNAN) — Essa última sendo criação da primeira.

Esse processo, de fome generalizada, crise de ebola no país, permitiu o crescimento das condições objetivas para a crise revolucionária do país, ou seja, permitiu o crescimento quantitativo da maturidade política do povo voltaico para entender que somente através da insurreição proletária que essas medidas seriam realmente combatidas e que seria superado a condição de subdesenvolvimento que submete o país ao imperialismo.

É interessante dizer que, durante as manifestações contra o aumento do custo de vida, que o PCRV fez sua primeira e única ação pública, onde levantaram bandeiras, cartazes, quadros do partido e da UJCHV, esse momento foi registrado pelo camarada Moussa Zongo.

Esse reconhecimento histórico do povo Voltaico permitiu que o mesmo não cancelasse as lutas por sua libertação, levando a cabo a insurreição de 2014.

LUTA PELO FIM DA AUTOCRACIA DO CLÃ COMPAORÉ

“A insurreição popular do nosso povo — em 30 e 31 de Outubro de 2014 — é o resultado de lutas constantes e heróicas, com determinação, lucidez, desde a década passada guiada por nosso Partido, os revolucionários e os democratas sinceros contra a autocracia de Blaise Compaoré e seu CDP. Essa luta constante se iniciou a partir do assassinato do jornalista Norbet Zongo e seus companheiros em 1998. Deve-se destacar a participação da juventude pobre, por sua combatividade, seu espírito de sacrifício e seu heroísmo nas barricadas.” - Nosso Povo Heróico Levou a Cabo a Revolução Popular de Significação Histórica, Partido Comunista Revolucionário Voltaico.

O estopim para o início do processo revolucionário em Burkina Faso, foi a tentativa de Blaise Compaoré se manter no poder por mais de cinco anos, indo contra sua própria constituição de 1991, isso fez com que o povo se erguesse contra sua autocracia e coloca-se em seu momento histórico de dono do poder político e econômico.

Nesse momento a palavra de ordem, nacionalmente era:

“Pela Construção de um Governo Provisório Revolucionário”

Durante a insurreição de Outubro de 2014, o povo erguem-se contra o governo e os militares em centenas de manifestações por todo território nacional. Ergueram-se barricadas trancando as ruas e o povo revolucionário de Burkina Faso queima a Assembleia Nacional, a casa do irmão de Blaise Compaoré.

Com essa reação em cadeia por toda Burkina Faso, Blaise Compaoré renuncia e deixa seu cargo que assume desde 1987, após o assassinato de Thomas Sankara, se exila na Costa do Marfim onde age como um agente pró-França, tentando voltar ao poder.

Essa insurreição provou certas questões:

  • A atualidade do Marxismo-Leninismo, acerca da revolução proletária, onde a classe trabalhadora assume diversas formas de luta (legal, ilegal, estudantil, sindical e armada) com a finalidade última de promover uma insurreição popular;
  • O papel da classe operária como vanguarda da revolução e como dona do seu próprio destino, onde a mesma é capaz de se auto organizar e tomar o céu de assalto contra a exploração do homem pelo homem e construir uma sociedade justa e socialista;
  • A capacidade de um Partido Revolucionário Antirevisionista em coesionar e guiar ideologicamente os operários , os camponeses e estudantes;

É importante lembrar que: A insurreição popular em Burkina Faso assemelha-se mais a insurreição de Fevereiro de 1917, pois foi uma insurreição para a construção do regime democrático revolucionário e não a de Outubro de 1917 onde já se tinha o objetivo de construir o socialismo.

Esse foi um momento histórico para a classe operária de Burkina Faso e para o movimento comunista internacional. Porém, após a classe operária seguir seu papel histórico como a classe avançada, o Clã Compaoré dá mais um golpe nos trabalhadores.

GOLPE MILITAR E RESISTÊNCIA DA CLASSE OPERÁRIA

Após a queda de Blaise Compaoré, o povo exigia a construção de um governo provisório revolucionário a serviço das necessidades materiais e culturais da população pobre, luta contra a fome e contra a Ebola. Porém nesse tempo de transição, assume Yacouba Isaac Zida, general do exército de Burkina Faso como Primeiro Ministro e Michel Kafando como Presidente.

As eleições marcadas em 11 de Outubro de 2015, organizado pelo reacionário Conselho Nacional de Transição (CNT), fora ignorada pelo por uma fração fascista do exército liderada por Gilbert Diendéré, que sequestra o Presidente e o Primeiro-Ministro.

Para termos uma noção de quem é Gilbert Diendéré, precisamos observar seu papel histórico durante o governo de Blaise Compaoré, este homem em questão é o responsável maior pelo assassinato de Thomas Sankara.

Com essa situação de extrema confusão nacional, o PCRV convoca as massas para lutar contra o golpe:

“As pessoas devem denunciar e combater o golpismo e todos os instigadores reacionários da guerra civil dentro e fora e se opor a qualquer intervenção militar estrangeira em nosso país”, e ainda conclamou as “Forças de Defesa e Segurança, especialmente os oficiais, sargentos e praças, patriotas, democratas e revolucionários a não usarem as armas do povo contra ele.”- Povo Impede Golpe Militar em Burkina Faso

Com essa convocatória, a CGTB, a UGEB e a ODJ, exigem a libertação do Presidente e do Primeiro-Ministro. Não durou muito tempo. O povo, mais uma vez, mostrou que, com sua organização, derrotará qualquer besta fascista que se intrometer no caminho de suas vidas. Gilbert Diendéré e a Guarda de Elite do Exército saíram humilhados. Renderam-se no dia 29 de setembro. Tiveram de entregar a base de Naaba Koom II e “ceder os postos de segurança”, além de entregar as armas.

Um exemplo vivo da determinação dos burquinenses são as inúmeras barricadas feitas em todos os cantos, becos, vielas, na cidade e no campo, que ainda persistem. Não bastou a liberação dos presos políticos e a devolução do cargo de presidente em transição a Michel Kafando: os movimentos sociais seguem organizados no país e em luta.

FIM DA DITADURA, COMITÊS DE AUTODEFESA POPULARES E LUTA CONTRA O JIHADISMO E O BANDITISMO.

Com a política do governo provisório, o governo francês passa a financiar grupos jihadistas contra o novo governo provisório, fora noticiado no mundo inteiro o ataque terrorista no Hotel de Ouagadougou, em janeiro de 2016, onde 56 pessoas morreram.

Esse ataque justificou que o novo governo convocasse as forças imperialistas, assim surge uma nova intervenção Francesa, Alemã no país e uma Norte-Americana. Já foram relatados dezenas de casos de estupros cometidos pelos soldados franceses às mulheres Voltaicas. Dentro desse contexto, crescem os comitês populares de autodefesa, o que mais cresceu nesse tempo ficou conhecido como “Koglweogo”, com o obejtivo de lutar contra o banditismo e o jihadismo.

O grupo justifica suas ações em três segmentos:

  • Com o fracasso do sistema judiciário liderou-os para uma perda de credibilidade entre as pessoas honestas. O Fórum Nacional de Justiça de Outubro de 1998 e, mais recentemente, os Estado Geral de Justiça de Maio de 2015, tem mostrado claramente perda de credibilidade;
  • Até agora nenhum o sistema judicial não tomou nenhuma medida concreta para trazer justiça para os mártires da insurreição e da resistência de Setembro de 2015, ou para pressionar ou punir os carrascos dos crimes de sangue ou crimes financeiros;
  • A confiança da população nas Forças de Defesa de Segurança, ou no Sistema Judicial, basicamente, não existe, são considerados corruptos entre a população. O povo não tem nenhuma esperança em esperar um sistema imparcial; Os crimes mais sérios, crimes financeiros e de sangue, não são perseguidos. A população está cansada de observar burocratas fazerem tudo por sacos de dinheiro dos clãs corruptos do país.

Por essas razões que as massas virão como única solução a sua auto organização para a sua auto defesa nos campos de Burkina Faso. Acerca disso, declara o PCRV:

“Os grupos de autodefesa apareceram como uma organização de luta, fora formada pelo próprio povo para resolver o grande problema da insegurança, o banditismo e o fracasso do sistema de defesa do estado neocolonial.

O PCRV convoca os revolucionários a abandonar o formalismo, que pode levar ao fim dessa iniciativa popular [Os Koglweogo]. Através da nossa imprensa, Bug-Parga, declaramos que as massas que tem sede de justiça devem ‘abraçar os Koglweogo, assim como nosso Partido’ para defender os escassos bens que a população adquiriu com suor e esforço. Eles lutam por uma nova forma de lei a serviço do povo, o que não fazem os ricos e poderosos que ocupam o sistema judiciário do nosso país.

A partir dessas afirmações, o PCRV conclui:

Na declaração de 27 de Abril, nos locais das eleições de 22 de Maio, o PCRV convoca os trabalhadores a boicotar as eleições. Nós encorajamos a população a criar seus próprios programas de governo, analisar as maiores demandas e aspirações e, com essa análise, lutar e trabalhar para a criação de mais ‘Comitês de Defesa para Alcançar o Levante Popular’, ou seja, grupos de autodefesa. Também exigimos que as tropas estrangeiras retirem seus exércitos do nosso país, para garantir a verdadeira autodeterminação, soberania e liberdade de Burkina Faso.”

Creio que está mais do que claro de que o PCRV participa sim dos grupos armados de autodefesa. Cremos que os maoistas procuram observar a luta de classes muito mais por sua estética positivista (empunhar armas etc.) do que pelo fato de analisar a luta de classes a partir do materialismo dialético e que, um partido armado, é nada mais que um meio de se chegar a insurreição socialista.

CONCLUSÃO

Foram provados as seguintes polêmicas:

  • O PCRV é um partido que existe;
  • Além de existir, dirige as principais frentes de lutas do país;
  • É tão ativo, que conseguiu levar a cabo uma insurreição popular, uma luta contra o golpe militar e encoraja o armamento pessoal do povo contra o banditismo;
  • Foi capaz de fazer tudo isso longe do revisionismo maoista e indo mais além, é o país que mais está próximo de sua libertação no século XXI.

Pedimos aos camaradas que se interessaram, a fortalecer a divulgação das revistas Unidade e Luta, o PCRV, a CIPOML e seu Partido irmão, o Partido Comunista Revolucionário.

NOTAS

[1] — TELECOMUNICAÇÕES EM BURKINA FASO:

https://en.wikipedia.org/wiki/Telecommunications_in_Burkina_Faso

[2] — O PCRV E A REVOLUÇÃO POPULAR EM BURKINA FASO, JORNAL A VERDADE: http://averdade.org.br/2012/03/o-pcrv-e-a-revolucao-popular/;

[3] — BURKINA FASO: “NOSSO DESAFIO É AVANÇAR O PROCESSO REVOLUCIONÁRIO”, JORNAL A VERDADE:

http://averdade.org.br/2015/02/nosso-desafio-e-avancar-o-processo-revolucionario-em-burquina-faso/

[4] — ENTREVISTA COM O COMITÊ-CENTRAL DO PCRV: http://www.pcrv.net/spip.php?page=pcrv-article&id_article=48

[5] — A HISTÓRIA DO SINDICALISMO EM BURKINA FASO:

http://thomassankara.net/le-syndicalisme-etudiant-dans-lhistoire-moderne-de-la-haute-volta-et-du-du-burkina/;

[6] — CLUBE TAEKWONDO UGEB:

https://scontent.fcpq1-1.fna.fbcdn.net/v/t1.0-9/12321386_1098188926931684_1602191190049776289_n.jpg?oh=999b5ca813045e8a993945e3bb36d97b&oe=5986BE3

[7] — ESTUDANTES DE BURKINA FASO EM ATRITO: http://www.panafricain.com/?page=detail_article&art=82381&lang=fr&pi=16

[8] — A HISTÓRIA DO SINDICALISMO EM BURKINA FASO: http://thomassankara.net/le-syndicalisme-etudiant-dans-lhistoire-moderne-de-la-haute-volta-et-du-du-burkina/

[9] — SOBRE O REVOLUCIONÁRIO THOMAS SANKARA:

http://kilombagem.org/sobre-o-revolucionario-thomas-sankara/;

[10] — MOUSBILA SANKARA:

http://thomassankara.net/ce-qui-a-ete-mis-en-place-ici-cest-une-democratie-marchande-a-loccidentale-interview-de-mousbila-sankara-ambassadeur-en-libye-sous-la-revolution/

[11] — SINDICATO: SYNATIC EMULA SEUS MILITANTES:

http://www.sidwaya.bf/m-2408-formation-syndicale-le-synatic-galvanise-ses-militants.html