Cianureto

O marido, com um olhar irônico e turvo, esticou o braço em direção à mulher. Com a mão imitando uma arma, como as crianças fazem quando brincam de polícia e ladrão, apontava diretamente para o rosto dela, entre os olhos. Ele havia construído esta mania ao passar dos anos. Após (vez ou outra durante) as discussões, as longas histórias e as reclamações, apontava-lhe o indicador e às vezes chegava a puxar o gatilho imaginário. O que difere as brincadeiras anteriores e esta é que antes era somente quando a esposa não podia ver. Quando estava de costas, arrumando a cozinha, por exemplo. Desta vez não. A mulher fitava a mão larga e levemente oscilante do homem apontando para seu rosto, com um olhar divertido, indagador e, ao mesmo tempo, indignado.

A esposa realmente não entendia. Aliás, o que havia para entender? Era praticamente cômica a imagem que formava. Se seu senso de humor fosse melhor, ela riria. Tinha certeza disso. Seu marido há décadas, um senhor respeitável, com uma atitude infantil assim. Parecia que uma máquina do tempo a levara para um passado bizarro onde seu velho esposo era uma criança, mas mantinha a aparência de início de senilidade.

Por um momento pareceu que a mão desceria até se acomodar no colo do homem. Não, foi apenas um devaneio. Quanto ele havia bebido hoje? Um copo? Dois? Uma garrafa? O olhar do marido carregava um sentimento pesado, escondido sob o brilho que a bebida dá aos olhos. Era um olhar frio, odioso. Ao perceber isso, a esposa disse, com um frio na espinha e uma voz mais aguda que o usual:

“Pare com isso, meu amor. Não estou entendendo… Converse comigo, sim?” — esperou um tempo até completar — “Não gosto do jeito que está me olhando, tampouco que aponte dessa forma para mim”.

Com o braço livre, o homem pegou o copo que estava descansando na mesa, levou à boca, engoliu e o devolveu à mesa.

O olhar da mulher passou de desconfiado para aterrorizado. Não saberia explicar o motivo, mas de um momento para o outro, passou a se sentir em extremo perigo, como se fosse uma situação de vida ou morte. E era. A honrável esposa, que um dia fora bela, mas não mais, percebeu que suas próprias mãos tremiam e contraíam. Sua boca estava seca. A voz havia sumido. As veias estavam dilatadas. Meu Deus, o que está acontecendo?

Com movimentos lentos, calculados, o homem se desencostou do sofá. Seu rosto carregava um meio sorriso débil e no olhar havia um brilho novo. Ele estava se divertindo.

“Isto é por ter tirado minha liberdade” — e puxou o gatilho. “Por ter me feito infeliz. Você tinha que se transformar nessa pessoa odiosa, vil e arrogante? Feia de corpo e alma?”

Recarregou a arma. Falou e atirou, pontuando:

“Por mim. Por você. Por nós. Pelo meu direito de ter paz. Entenda, era você ou eu. Eu só tomei a iniciativa”.

E tudo ficou escuro.

Thales Henrique Paião Oliveira

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Estudante, filho, baterista, quase um contador e leitor. As vezes acha que tem habilidade para escrita. Logo passa.