A Era Trump pode inaugurar o desmoronamento da “Pax Americana”​ no mundo

Quando os inimigos estavam nos portões e os romanos sentiam-se ameaçados em sua soberania, eles suspendiam a democracia e nomeavam um homem para proteger a cidade e governar por decreto, isento (durante e depois do exercício do seu mandato) de responsabilidade judicial e guardando o poder praticamente absoluto. O último homem nomeado para proteger a República foi César e ele nunca desistiu de seu poder.

O Império Romano dominou um vasto território no mundo, desde a fronteira da atual Escócia até o Oriente Médio e do Danúbio ao Egito e ao Marrocos. Essa época de hegemonia de Roma ficou conhecida como “Pax Romana”, uma expressão latina para “Paz Romana”, que correspondeu a um longo período de relativa paz, ordem, tranquilidade e manutenção do statuos quo, graças ao poderio imposto pelo Império Romano.

No mundo moderno, a variação da expressão, “Pax Americana”, surgiu após a queda do III Reich, na Alemanha, referindo-se a hegemonia norte-americana no mundo. Indica, também, o período de relativa paz entre as potências ocidentais e outras grandes potências do fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, coincidindo com a atual dominação econômica e militar dos Estados Unidos. Esse conceito coloca os EUA no moderno papel que teria o Império Romano em sua época.

Porém, essa ordem internacional, tanto de livre comércio como de segurança, compartilhada e sustentada pelos Estados Unidos e seus aliados do pós-guerra, pode começar a vislumbrar os seus últimos dias. após a posse do novo presidente republicano dos Estados Unidos, Donald Trump, carregando como estandarte um discurso de protecionismo e políticas unilaterais e isolacionistas.

Figurando como “azarão” no começo da corrida eleitoral pelo cargo mais poderoso do mundo, Trump ganhou força ao apoiar-se na insatisfação da classe média ou média baixa americana com a política tradicional e os figurões das grandes cidades do Leste e da Califórnia. A abertura comercial nos Estados Unidos gerou ganhos ao consumidor e aos trabalhadores com diploma universitário mas, ao mesmo tempo, expôs os trabalhadores da indústria à competição dos salários baixos da China e México, por exemplo.

Enquanto Trump acertou no diagnóstico da insatisfação que o levou à Casa Branca, abusando de um discurso nacionalista e autoritário, com a promessa de “vamos fazer a América grande de novo”, o remédio proposto pode ser desastroso e significar o fim da “Pax Americana” no mundo e a ruptura da ordem internacional estabelecida após a Segunda Guerra, inaugurando uma era de medo, instabilidade e incertezas entre os EUA e as demais potências globais.

O registro histórico é claro: protecionismo, isolacionismo, nacionalismo exacerbado e políticas de “América Primeiro”, somadas a um descontentamento social com o regime político democrático atual, são uma receita para o desastre. O mundo já viu isso acontecer. Em 1933 Hitler foi nomeado chanceler de uma Alemanha que sentia-se humilhada e injustiçada pelo Tratado de Versalhes, com uma população que amargava altos índices de desemprego e que culpabilizava a comunidade internacional pelo seu destino.

Naquela Alemanha dos anos de 1920 e 1930, uma classe média baixa e branca acreditava, pela primeira vez em décadas, que o futuro não seria melhor que o passado, vendo-se como perdedora da globalização e da crise financeira. São essas semelhanças na situação política Alemanha-EUA, no tocante a essas classes sociais e à sua disposição de apoiar líderes com discursos semelhantes ao de Trump e Hitler, que configuram uma grande ameça de, como diz a música, “o futuro repetir o passado”.

Esse cenário, porém, não é exclusivo dos EUA. A política tende a acomodar-se aos acontecimentos, e o que vem se desenhando no horizonte da política internacional é um avanço preocupante dos partidos de extrema-direita e conservadores na Europa. Quando os efeitos da crise econômica começaram a ser sentidos de forma mais grave no Velho Continente, os partidos xenófobos e nacionalistas viram crescer enormemente sua aprovação.

Na França, a líder ultraconservadora Marine Le Pen, do partido Frente Nacional, que vem crescendo espantosamente em popularidade, dança a mesma música de Trump. Ambos fazem do discurso contra a imigração o carro-chefe da sua estratégia, criticando abertamente o sistema político-partidário e os blocos econômicos comuns, pregando o protecionismo e encantando uma parcela da população mais preocupada com seus problemas domésticos do que com os conflitos geopolíticos.

No Reino Unido, a hostilidade popular em relação às políticas da Europa, o medo da imigração e seus impactos na sociedade e o sentimento de protecionismo econômico, que defendia que o país estava gastando dinheiro demais com imigrantes e políticas impostas pelas regras da União Europeia, ajudaram a arrancar o reino da Rainha Elizabeth II do seu próprio continente, dando vitória ao Brexit. Uma vitória da direita inglesa, já que vários políticos conservadores lideraram a campanha pelo saída da UE.

É nesse contexto em ebulição, de profundas mudanças políticas, econômicas, sociais e culturais no mundo, que Donald Trump assumiu o Salão Oval, na Ala Oeste da Casa Branca. Com uma mistura de populismo econômico de esquerda com um nacionalismo de extrema-direita, somando a isso uma política externa que prega o isolamento bélico e o fim dos EUA como a “polícia do mundo”, a Era Trump pode inaugurar o desmantelamento da arquitetura global, estabelecida no final da Segunda Guerra Mundial.

Certa vez, ao dar início à Guerra Civil em Roma, que o levaria futuramente ao posto de ditador, Júlio César teria proferido a famosa frase “alea jacta est”. Ou, “o dado está lançado”. Hoje, frente a um período de dúvidas e incertezas que se inicia, e que promete colocar em cheque o mundo como o conhecemos e estamos acostumados, tudo com o que podemos contar é com a sorte, e torcer para que os pecados do passado não sejam repetidos no futuro. O dado está lançado.