É verdade. A gente cresce e perde o contato com os amigos de escola. Apesar dos contatos estarem ali na barra de pesquisa. Perde o contato com a realidade e com o que te faz conhecer as pessoas. A gente perde o contato com a gente, no final das contas. Paramos de ser solidários, empáticos, generosos. Desistimos de sermos doadores. Principalmente de sentimentos. Aparentemente era muito mais fácil dividir tuas agonias com teus colegas de classe durante o ensino médio e fundamental, por exemplo. Quando a gente ainda não pensava em carreira, em emprego, na fome, na injustiça, na política, na Netflix. Em todas essas coisas que somos obrigados a pensar se quisermos um pensamento “alinhado”, “atualizado”. Comprometido com a tal da realidade.
 
O sistema monetário, escolar, midiático, social, mental e apático nos leva a um caminho onde supomos que existem opções ilimitadas. Falamos mentiras pra nós mesmos a todo o momento e acabamos por nos convencer de que é assim mesmo, que ninguém se importa e que não deveríamos nos importar também. No final das contas, não nos importamos. Temos dores nas costas, lemos jornais, gastamos dinheiro pra trabalhar, no deslocamento ao trabalho, em cursos para o trabalho, para pararmos de trabalhar. Gastamos dinheiro pra podermos gastar dinheiro durante as férias. Férias que esperamos seis meses, um ano, cinco anos, doze anos. Sim, as leis trabalhistas existem, mas o capitalismo também. Gastamos dinheiro pra evitar que passemos fome tanto quanto para que não passemos sóbrios. Ensinam-nos produtividade.
 
Produzir é ser proativo, diferenciado, empreendedor. Somos ensinados a esquecer da felicidade e, consequentemente, da inevitabilidade da morte. Apoiando nossas necessidades na religião e na esperança de deixarmos um futuro rico para nossos filhos. Rico de dólares, reais, euros, bens. A proatividade do século XXI é a deturpação usada pra te convencer a investir seu próprio tempo em troca do tempo de alguém mais rico. É ocupar-se de pensamentos que coloquem mais lenha na fogueira do mercado e combustível na máquina que consome a si própria. O importante é manter a chama do consumo acesa. Gastamos tempo em lugares vazios, organizando planilhas e planejando melhores maneiras de organizarmos planilhas. Gastamos tempo sendo incapazes, inúteis, irreparáveis. Temos medo da tristeza. Amamos café, cinema, cultura, drogas. Perdemos o senso do que é prazer e do que é dependência.
 
 Perdemos o consenso da natureza. Que fazemos parte dela. Não reciclamos smartphones, nem ideologias, nem comportamento, por mais que digam que sim. Não abrimos mão de televisões, nem de serviços de streaming, e sempre estamos à procura da simplicidade. Procuramos uma casa no campo, um abraço e uma conversa. Um amor, poesia, frases de efeito. São as redes sociais que dizem isso, não eu. Não reparamos na luz que entra na janela do quarto porque o Sol está lá todo dia. Não reparamos na quantidade de alimento, sódio, açúcar, adoçantes artificiais, pesticidas, vermicidas, enxaguante bucal, carne bovina, dor, ódio e submissão que consumimos. Simplesmente está tudo lá, 24 h por dia, 7 dias por semana. É normal mesmo.
 
Simplicidade e praticidade, duas coisas que combinam muito com o último modelo de tablet lançado. Duas coisas que combinam, igualmente, com ficar em casa numa quarta-feira de manhã. Mas das nossas quartas-feiras de manhã não precisamos, convenhamos. 
 
A dura revelação é que não precisamos de nossos empregos e, em dias quentes, nem de nossas roupas. Não precisamos de remédios sintetizados inventados apenas pra suprir a necessidade de não termos um tablet tão simples, moderno e prático ou do fato de não termos nossas quartas-feiras de manhã. Não precisamos de dinheiro, nem de cassetetes, nem de centenas de hectares habitados apenas por ganância e desprezo. Não precisamos de ternos, nem de produtos a base de marfim, nem de dinheiro, nem de produtos de genocídios. As maravilhas da vida moderna viriam muito a calhar, caso trabalhassem a favor da autoconsciência, de nossos corpos livres e mentes sadias. Caso trouxessem à tona a importância de equilibrarmos nossa naturalidade. Caso solucionassem problemas que a própria casualidade não consegue e que por ela mesma são produzidos. Caso preservassem, em conjunto, nossa sanidade individual e coletiva. Caso nos ensinassem, de verdade, a desfrutarmos de nossas quartas-feiras de manhã.

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