Nada demais, tudo de muito

Tem dias que eu acho que eu sou tudo. Não tudo como único, mas o tudo como o todo. Coexistindo com todas essas coisas. Sendo eu e o resto. Ao mesmo tempo em que não considero meu corpo como limite pra nada. Coloco a mente à frente e me moldo. Me adapto. Eu muito mais eu, os outros muito mais os outros. Nesses dias de tudo eu amo. Meus olhos, nariz, boca, cabelo, ombros barriga, pernas, quadris, orelha, queixo, bochecha. Nesses dias amo de tudo nos outros. O caminhar, a franja, a trança, pinta, pé, canela, panturrilha, braços, sorrisos, risadas, costas, colo, cheiro. Nada desarmoniza. Tudo em movimento coloca um sorriso em mim e, consequentemente, nos outros. Sou eu dentro e fora. Porque no final a gente é o que acha que é. Pensar no que não se é acaba te tornando nada.
 
 Nos dias que me sinto nada, é nada. O absoluto zero me consome no peito e me arrasta pelas horas, totalmente disfuncional. É tudo rabisco e cinza. Tudo parede e muro. É tudo caminhar em falso. Descompassado. Descontrolado. É a certeza de que não é nessa vida que encontro um desabafo. Nem choro, nem vela, nem transa, nem beijo, nem reza, nem sol, nem grana, nem sonho, nem trago. Cada passo pra dentro do pensamento é a morte me apertando os pulsos e me beijando as mãos. É o diabo trabalhando na minha cabeça como se fosse segunda-feira. Entediado, atrasando serviço que já deveria ter sido entregue.
 
 Tem dias que a gente fala que sente. 
 
 Tem dias que agente acha que sabe o que sente.
 
 Tem dias que a gente sente.
 
 Tem dias que a gente não sabe o que é. E quando não se sabe, é esse corpo que pesa.

Nem olhos, nem boca, nariz ou cabelo, nem ombros, barriga, nem pernas, quadris ou orelhas. Nem queixo ou bochecha. Nem nucas, Nem choro, nem sol, nem grana, nem sonho, nem trago, nem vela, nem transa, nem beijo, nem reza.

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