A Inutilidade da Filosofia
Por que uma ciência tão essencial está de fora da BNCC?

Nos é bem conhecida a situação da educação brasileira em todos os seus níveis. Entretando, é no Nível Médio, nas hoje chamadas “Ciências Humanas” — palco para ideólogos e sofistas disfarçados de grandes mestres — que encontramos o objeto de nossa crítica, a área que mais sofre com as consequências da relativização e com a aplicação de métodos falhos de educação: A Filosofia.
Uma pauta que se tornou recorrente são as recentes revisões feitas na BNCC; dentre várias questões, uma das principais é a retirada da Filosofia da grade obrigatória. O principal argumento, se baseia no fato da queda de rendimento em outras matérias, principalmente em matemática. Segundo os pesquisadores, a relação estaria na ocupação do espaço que poderia ser dedicado às Ciências Exatas.
O erro dos pesquisadores está no diagnóstico e interpretação do problema, a queda do aproveitamento dos alunos está relacionado sim à filosofia , mas não à disciplina em si, como vêem estes, mas em como essa importantíssima ciência é ensinada nas nossas instituições de ensino. E para que fique melhor explicado, precisamos reintroduzir alguns termos ao leitor; façamos isso no tópico a seguir.
A Verdadeira Filosofia

É impossível falarmos de uma ciência e não nos perguntarmos do que ela se trata e qual seu objeto de estudo. E, apesar da resposta ser mais complexa quando se trata da Filosofia, parece que esta foi esquecida há muito tempo, pois o que se vê hoje nas salas de aula não se assemelha em nada à definição de filosofia que foi dada por Platão no diálogo “A República”: A ciência que estuda a essência dos seres, os princípios imutáveis e transcendentais. Aqui, um breve diálogo onde Platão põe na boca de Sócrates sua visão:
Sócrates — Afirmaremos, pois, que as pessoas que enxergam muitas coisas belas, mas não apreendem o próprio belo e não podem seguir aquele que gostaria de guiá-las nessa contemplação, que enxergam muitas coisas justas sem verem a própria justiça, e assim por diante, essas pessoas, diremos nós, opinam sobre tudo, mas não sabem nada a respeito das coisas sobre as quais opinam.
Glauco — Necessariamente.
Sócrates — Mas que diremos daquelas pessoas que enxergam as coisas em si mesmas, na sua essência imutável? Que elas possuem conhecimentos, e não opiniões, não é verdade?
Glauco — Necessariamente, também.
Sócrates — Não diremos, da mesma forma, que amam as coisas que são o objeto da ciência, ao passo que os outros sentem isso apenas por aquelas que são objeto da opinião? Não te recordas do que dizíamos a respeito destes últimos que amam e admiram as belas vozes, as cores belas e as outras coisas semelhantes, mas não admitem que o belo em si mesmo seja uma realidade?
Glauco — Recordo-me.
Sócrates — Seremos injustos com eles se os denominarmos amantes da opinião em vez de amantes da filosofia? Ficarão muito irritados conosco se o tratarmos assim?
Glauco — Não, se acreditarem em mim, pois não é lícito irritar-se com a verdade.
Sócrates — Então, denominaremos filósofos apenas aqueles que em tudo se prendem à realidade?
Glauco — Sem sombra de dúvida.
A verdadeira educação é aquela que direciona a nossa alma para as coisas superiores e eternas, que são as coisas mais “iluminadas”, mais próximas do Bem. Daí é tirada A Alegoria da Caverna, em que o Bem é representado pelo Sol, e a transição entre a escuridão e a luz é a metáfora para a Educação(que inclusive está na própria etimologia da palavra: educere, “levar para fora”, em tradução livre). Hoje, por conta de uma educação fundada sobre métodos imbecis de pedagogos ignorantes, os professores têm a falsa idéia de que seu trabalho é fazer com que os alunos aprendam a “pensar com a própria cabeça”(sic). Para isso temos mais uma resposta milenar, que de tão óbvia, nos dá tristeza por ter de ser repetida:
Sócrates — A educação é, pois, a arte que se propõe este objetivo, a conversão da alma, e que procura os meios mais fáceis e mais eficazes de o conseguir. Não se trata de dar visão ao órgão da alma, visto que já o tem; mas, como ele está mal orientado e não olha para onde deveria, ela esforça-se por encaminhá-lo na boa direção.
A partir disso, podemos perceber a importância da filosofia e da educação: a educação nos direciona ao Bem e às coisas imutáveis; a filosofia, por sua vez investiga os seres guiando-se pelo Bem. Logo, tal como a bússola e o caminho, os dois estão intrinsecamente ligados. Por que então a segunda tem atrapalhado o rendimento em outras matérias? Não deveria ela ajudar na compreensão delas? O que tem atrapalhado a filosofia de fazer seu trabalho nas salas de aula?
O Problema
Hoje, a grande maioria das aulas de filosofia foram reduzidas aos mais fúteis e efêmeros debates: ao invés de dar bases argumentativas e lógicas ao alunos, ensinar-lhes os avanços da filosofia até aqui e toda a história do pensamento filosófico, pega-se jovens despreparados do debate, sem nenhum noção da condição dos seus argumentos e, como numa rinha, o professor os põe a brigar; é claro que é algo totalmente infrutífero, que não alimenta o raciocínio, e que nunca gera o debate real e sim uma conversa onde todos, com seus rasos conhecimentos(e não têm culpa disso, visto a pouca idade), apenas concordam uns com os outros.
Isso gera um desprezo à filosofia por parte dos alunos, que passam a idealizar a filosofia como puro devaneio, que não deve ser levado a sério; vale dizer, se a filosofia idealizada por esses jovens fosse um homem, assim seria sua imagem: um homem que já foi grande e sábio, mas que hoje, ultrapassado por outros mais jovens, é apenas um velho caduco que não se deve levar a sério. Com essa imagem em mente, cria-se uma tendência a excluir a filosofia dos saberes importantes, e até mesmo considerá-la inútil e que existe apenas para atrapalhar; mas a verdade é que, é essa didática, fomentada por décadas de aplicação de métodos falhos e ultrapassados de educação, que faz com que a imagem da disciplina seja manchada no meio escolar.
Uma das mais importantes áreas do saber, a filosofia é a Ciência Áurea, da qual todas os outros campos de estudo partem e lhe são ferramentas. Enquanto as outras ciências estudam as partes, a filosofia estuda o todo, o próprio ser e, levando isso em mente, podemos imaginar o quanto seria benéfico para o desempenho dos alunos em outras matérias se houvesse um bom estudo filosófico, com um bom método didático, que realmente levasse os alunos ao verdadeiro conhecimento, por meio da dialética, da lógica, e do conhecimento dos princípios da Realidade. A opinião do humilde autor, é essa: deve-se melhorar muito o didática e os métodos das aulas de filosofia, oferecendo aos alunos o mais abrangente conhecimento e iluminando seu caminho até a verdade, só assim teremos uma educação filosófica real, que , ao invés de atrapalhar , dará aos alunos conhecimento, que os ajudará nas outras matérias. A realidade, porém, nos leva a ser pessimistas: os pesquisadores estão certos; sim, a filosofia com sua atual didática está atrapalhando as outras matérias. E deve sim, se tornar uma disciplina opcional para a grade curricular; quem sabe dessa forma, a parte da Filosofia que ainda não foi totalmente profanada por esses falsos mestres fique preservada nos níveis mais altos da educação.
Referências:
Platão. A República. Tradução de Enrico Corvisieri. 1° Edição, São Paulo, Editora Nova Cultural, 2000
