Análise: Talk shows no Brasil — Lady Night com Tatá Werneck

Por: Thalis Firmino

Recriando uma proposta não muito nova, o programa Lady Night, comandado pela atriz, comediante e apresentadora Tatá Werneck, estreou em 10 de abril de 2017, às 22h30, pelo MultiShow, um canal de televisão brasileiro por assinatura, com programação voltada para o entretenimento.

A emissora, que sempre ousa nas criações, resolveu investir num programa de entrevista por temporada que conta com 25 episódios e que, curiosamente, despriorizou o foco central no diálogo e, mesmo o fazendo, prezou pela descontração e brincadeiras entre os convidados. O conceito é antigo, mas a maneira que vem sendo conduzido pela produção, além do comportamento inusitado da apresentadora, fizeram de Lady Night um destaque na crítica e sucesso com o público, que já o denomina como como mais irreverente e divertido talk show da atualidade.

Em quesitos visuais, o programa não é nada inovador, o cenário segue o padrão convencional que estamos acostumados a assistir: um sofá e uma bancada, o primeiro para o convidado e o segundo para o apresentador. Lady Night também traz uma banda, baita clichê, servindo para acompanhar os blocos, animar os musicais/brincadeiras, bem como, o início e o encerramento do programa.

No entanto, a responsável pela linha de frente, Tatá Werneck, parece construir o roteiro conforme a interação que se estabelece entre ela e o participante do dia, fazendo do estúdio uma grande bagunça organizada. Dessa forma, os quadros são ajustáveis e se montam conforme o perfil do entrevistado que, em sua maioria, são personalidades da mídia, web celebridades e subcelebridades e, somente na “conversa com o especialista”, momento em que ela interrompe o papo para receber uma pessoa entendida sobre certos assuntos, ela inicia o momento ápice do programa, um verdadeiro show de maluquice e diversão, sendo esse o responsável por inúmeros memes [imagem/vídeo relacionados ao humor] e virais nas redes sociais. E como uma boa humorista, com pensamento acelerado, frases rápidas e imensa facilidade em fazer rir, Werneck consegue, muito naturalmente, prender a atenção dos telespectadores nos poucos mais de 40 minutos de exibição do Lady Night.

Já tratando de possíveis valores sociais, Lady Night não é um programa educativo, muito menos que disponha de alguma preocupação sobre discussão ou influência para o povo. É um produto feito para diversão, inclusive, não deve ser assistido com grandes expectativas nesse sentido, isso, levando em consideração que foi/é um material pensado para entreter e não induzir condutas ou comportamentos. Uma vez que as conversas são basicamente sobre carreira, curiosidades e vida pessoal dos atores/atrizes, cantores/cantoras e demais celebridades que participam. Evidenciando que o objetivo não é algo que, de fato, traga alguma relevância pública.

Entrando agora numa análise de formato e trazendo um dos textos da doutora, professora e pesquisadora, Yvana Carla Fechine de Brito, em: “Gêneros televisuais: a dinâmica dos formatos” (2001), com qual se busca compreender os rótulos dos programas para assimilar suas referências, a autora, ao apresentar o que chama de “formatos estético-culturais”, que são basicamente os agrupamentos para produções audiovisuais e televisivas, comenta sobre o formato talk show, onde ela o enquadra como um modelo nascido e estabelecido pelo diálogo, o descrevendo da seguinte forma:

É aquele fundado essencialmente na conversação interpessoal, na exploração das situações de interlocução direta e nas suas diferentes manifestações (debates e entrevistas, entre outros): a TV funcionando como metáfora de um grande chat. (BRITO, Y. C. F. 2001. p. 7).

Diante disso, constata-se que com o percorrer das épocas, o talk show se construiu através de fortes influências do rádio, nas características de um gênero que se estabeleceu na conversa, no bate papo e tem como essência primeira o falar ágil, instantâneo e compreensível para todos. O que demonstra que, espelhando-se nessa ferramenta de mídia sonora, o talk show também busca fluir e transparecer um dinamismo que passeia entre informação e entretenimento e, assim como acontece com o Lady Night, outros programas com a mesma proposta segue essa linha de estruturação.

Por conseguinte e ao dialogar sobre modernidade, o programa, já nascido nessa nova realidade de produzir e distribuir TV, mostra que realmente caminha engajado com as plataformas digitais, visto que, além de transmitir os episódios na telinha, pelo MultiShow, também o fragmenta com seus melhores momentos, lançando-o nas redes sociais e convidando/instigando o espectador a acessar links que levem para plataformas de conteúdo pago como Globosat e Globo Play. E isso, justamente nesse desejo de alcançar público de todos os fins, ajustando-se na nova modalidade de consumo.

No artigo “A televisão em transformação …ou como o conteúdo colaborativo pode invadir a TV aberta”, da pesquisadora Rosane Svartman, é acentuado esse processo de mudança, no momento em que ela explana que:

Os produtores aos poucos também já entenderam que é preciso promover os programas nos ambientes em que o público está: as redes sociais (…) público interage, participa e, principalmente, compartilha. (SVARTMAN, Rosane. 2016. p. 10).

Dado que o receptor muitas vezes não está disponível para assistir na TV e, com isso, ele consegue essa possibilidade em acessar o mesmo material e com a mesma qualidade nos dispositivos móveis: celulares, tablets etc.

Observações e comentários pessoais:

Como telespectador, assisti o Lady Night não somente por ser um programa com esquema de conversação, modelo esse que gosto de consumir, mas, principalmente, por se tratar um espetáculo de humor particular dentro de casa. E não desmerecendo os demais, penso em Tatá Werneck como o nome do momento. A mulher surpreende em cada episódio mostrando versatilidade e jogo de cintura, tendo uma ótima troca entre os convidados e criando uma intimidade com o público, desfazendo aquela sensação de distância, me sinto parte da plateia.

Sem sombra de dúvidas, tem tudo pra continuar sendo sucesso nas próximas temporadas, é leve, bacana e, como descrito pelo jornalista do site “Série Maníacos TV”, Natanael Chimendes, e, sintetizando toda essa explanação, Lady Night é “uma ótima opção para quem está querendo terminar um dia exaustivo com sossego e algumas risadas (ou gargalhadas)”. Vale a pena acompanhar, e o produto super merece uma atenção especial, isto, levando em conta esse novo momento da programação audiovisual do Brasil.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BRITO, Y. C. F. Gêneros televisuais: a dinâmica dos formatos. Symposium (Recife), Recife, v. 5, n.1, p. 14–26, 2001.

SVARTMAN, Rosane. A televisão em transformação… ou como o conteúdo colaborativo pode invadir a TV aberta. In: XXV Encontro Anual da Compós, Goiânia, p. 1–21, 2016.

REFERÊNCIAS ELETRÔNICAS:

AMARAL, Catarina. Características da rádio. Disponível em: <http://www.ipv.pt/forumedia/4/16.htm>. Acesso em 15 de maio de 2017.

CHIMENDES, Natanael. Lady Night, o mais novo acerto de Tatá Werneck. Disponível em: <https://seriemaniacos.tv/lady-night-o-mais-novo-acerto-de-tata-werneck/>. Acesso em 16 de maio de 2017.