As boleiras do Riacho, o doce das Alagoas

Elas são personagens fundamentais que compõem a característica humana e histórica da região norte de Maceió, no bairro de Riacho Doce, em Alagoas. Trabalhando às margens da rodovia AL-101, nos arredores da pacata Praça da Igreja, essas mulheres imprimem seus talentos culinários adquiridos através de uma cultura matriarcal, no esforço diário de manter firme a tradição gastronômica daquela localidade, que com o passar dos anos vem perdendo força entre as novas gerações.

Essas figuras, sempre sorridentes, solícitas e muito empenhadas, todos os finais de semana se reúnem nas casas de farinha e bem cedo, às 7h da manhã, iniciam o processo de fabricação de seus quitutes, tudo de modo caseiro e artesanal, sem intermédio de recursos tecnológicos que agilize ou facilite o trabalho. Isso denota a simplicidade característica do modo de vida de nossas personagens. O forno é de barro, o local é rústico, mas o serviço é bem feito e de muita qualidade, são portadoras de um talento ímpar. Os clientes provam, aprovam e recomendam.

Pouco mais das 10h, se organizam nas margens da estrada e montam suas barracas na espera pelos clientes, que hoje já são mais como os de outrora. A maior parte dos compradores se origina do próprio bairro, onde há alguns anos se tinha como particularidade a presença de turistas, seja pelo veraneio ou por passeios, tendo como reflexo dessa baixa procura o não faturamento e baixo retorno dos investimentos. E para constatar essa colocação, só é necessário passar algumas horas junto a elas na rodovia. É notória a baixa quantidade de carros que param para realizar as compras, e paradoxalmente, os poucos que ainda permanecem, são os que ajudam a sustentar as barracas com a aquisição dessas mercadorias.

Dona Cristina e as sobrinhas Paula e Poliana foram as protagonistas principais na produção desse material. E nessa família, observamos os anseios e angustias de três pessoas que sabem que são especiais, ao serem umas das poucas que ainda dedicam tempo e dinheiro na sustentação dessa marca, mas que também se entristecem e compreendem que as circunstâncias atuais não colaboram para preservação dessa propriedade reconhecida da capital. Isso porque, a região, os moradores, os clientes, os preços da matéria prima, tudo mudou. “Encomendamos os cocos a um rapaz, cada um custa dois reais e nós utilizamos duzentos cocos, totalizando quatrocentos reais. Antes sobrava dinheiro, hoje o material é todo caro e difícil de encontrar”, destacaram.

Nesse novo cenário elas convivem com a incerteza, a tia por hora quer largar a tradição, as sobrinhas almejam outros horizontes,sonham em entrar na universidade o que as fazem dividir as atividades com os estudos, Paula tenta uma vaga no curso de Bacharel em Direito, Poliana, por sua vez, busca ingressar no curso de Letras-Espanhol, sempre direcionando o olhar para uma nova realidade futura. “Tá muito difícil, terminei o estudo, mas estou correndo atrás da faculdade de Direito” expôs Paula, e tudo isso implica na manutenção dessa tradição tão rica. Sinal dos tempos? O fato é que a especulação imobiliária e o crescimento das construções tiraram grande parte do público consumidor dos produtos. Essas construções limitaram acesso à casa de farinha, esta recebia, mesmo com pouca estrutura, pessoas interessadas em tomar o café da manhã provando dos alimentos preparados pelas boleiras do Riacho Doce. “Quem compra os produtos são mais os turistas, só que depois dessas mudanças o movimento caiu”.

O impacto dessas transformações põe em cheque a existência uma herança histórica e cultural dessas pessoas. Isso porque, como já citado, a tendência é que diante essas inúmeras dificuldades que surgem ao longos dos anos, muito em breve Alagoas poderá perder esse patrimônio imaterial que enriquece o estado e fortalece o nome de Maceió ao restante do país.

Texto elaborado pelos alunos Thalis Firmino e Maykson Douglas para disciplina Comunicação e Cultura, sob orientação da professora Fernanda Rechenberg na Universidade Federal de Alagoas (Ufal).