Dificuldade além da crise: O mercado de trabalho para travestis e transexuais

Por Thalis Firmino 
Estudante de Jornalismo

“Ser travesti ou transexual não me faz incapaz de produzir ou de mostrar que sou boa em algo. Eu sei trabalhar, eu posso trabalhar e eu quero trabalhar”, Lívia Omena, 26 anos, travesti e alagoana.

Em tempos de dificuldade na busca de empregos, discutir a realidade da população trans (travestis e transexuais) no mercado de trabalho vai além de qualquer crise econômica. O processo de exclusão enraizado pela sociedade, iniciado muitas vezes na própria família, se perpetua na escola e acaba se refletindo no âmbito empresarial.

A determinação de estereótipos e a visão marginalizada são os fatores que influenciam no olhar distorcido sobre essas pessoas, o que contribui para total rejeição desses profissionais, que acabam tendo suas capacidades limitadas pelo simples fato de identificação sexual, sendo colocados em situação ainda mais vulnerável.

Entenda | Diferença entre travesti e transexual

Segundo a definição publicada no Portal EBC (Empresa Brasil de Comunicação), adotada pelo texto base da Conferência Nacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBT) de 2008, o termo travesti é utilizado para designar uma pessoa que não se identifica com o gênero biológico e se veste e se comporta como pessoas de outro sexo. Já a transexualidade, partindo também da não identificação com o gênero de nascimento, caracteriza-se pela possibilidade de manifestação no desejo em fazer uma cirurgia para mudança de sexo, o que não acontece com as travestis.

A realidade em Maceió

De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), apenas 10% desse grupo estão em empregos de carteira assinada, enquanto as demais, 90%, atuam na prostituição.

Nossa personagem, a travesti Lívia Omena, já citada, é natural da cidade de Atalaia, interior de Alagoas e há seis anos está em Maceió. Veio, a princípio, em busca de oportunidade e precisou se reinventar para conseguir se manter na cidade. Dona do próprio negócio, passou a trabalhar com confecção de lembranças para festas infantis e, mesmo não dependendo de vínculos empregatícios para o sustento, relata a dificuldade e explica que é importante que as portas sejam abertas e que as pessoas passem a atentar para a necessidade de inclusão.

Antes de atuar no ramo de festas, Lívia conta que tentou por anos uma vaga formal, mas foi vítima do preconceito, comumente sentido por travestis e transexuais no momento em que se candidatam a determinados cargos, não sendo convocados(as) nem para os processos seguintes da seleção. “A gente fica sabendo que tal empresa está contratando, leva o currículo e já percebe o estranhamento. Só em olhar na nossa cara já desconversam, e antes mesmo de permitir que se chegue à entrevista ou as outras etapas do processo, somos desclassificadas. E isso independe de quantos cursos tenhamos feito ou do que sabemos fazer, na verdade pouco importa comparado a nossa identidade assumida. E justamente por saber que as coisas lamentavelmente são assim que a gente tem que buscar meios para sobreviver, se virando com os “bicos” [empregos informais], como eu faço, ou até mesmo indo para as ruas [prostituição], caso contrário, passa fome”, afirmou.

Lívia é uma exceção entre tantos e tantas que não dispõem da mesma criatividade e desenvoltura para buscar meios em driblar as barreiras sociais. Como dito por ela, a prostituição, mesmo sendo uma opção legítima de renda, acaba sendo a única saída. O dinheiro vem rápido, mas não é fácil. Principalmente pela exposição em que se submetem com pessoas que nunca viram na vida. Muitas são obrigadas a ceder à “cafetinagem”, a pagar pelos pontos, além de sofrerem extorsão e, sobretudo, se tornarem alvos fáceis à violência de transfóbicos escondidos em clientes.

O que dizem as empresas

Na contramão da tendência, duas grandes empresas em recrutamento e seleção de pessoal na capital alagoana, AdvanceRh e CnRH — Consultoria em Recursos Humanos, compreendem a importância de lidar com essa realidade e buscar meios, junto as empresas, para facilitar a inserção dessas pessoas no mercado. “O preconceito está em todos os contextos da nossa sociedade. As pessoas ainda avaliam o ser humano a partir de uma característica que talvez não se enquadre dentro do que a sociedade acredita ser aceita. Porém, talvez não estejam preparados para entender que o ser humano deve ser considerado a partir do seu papel exercido como cidadão, que tem o direito de participar ativamente de todos os processos cotidianos e está inserido na sociedade, como sujeito pertencente a ela. Nossa contribuição está no fato de não reforçar esse tipo de preconceito, sempre receptivos a esse público, sempre dispostos a acolhê-los em nossa empresa, seja capacitando-os profissionalmente, bem como facilitando e criando oportunidades para que possam participar de processos seletivos, com o intuito de inseri-los no mercado de trabalho”, manifestou a AdvanceRh, em resposta institucional aos questionamentos apresentados para esta reportagem.

A CnRH — Consultoria em Recursos Humanos, por sua vez, frisou que a atenção deve partir ao considerar o que essas pessoas podem e têm a oferecer, conforme suas habilidades, experiências e capacitações. “Nosso foco são as competências técnicas e organizacionais, muitas vezes não percebemos a questão da sexualidade. Porque as empresas não se sentem à vontade para falar desse assunto ou não têm esta questão como ponto relevante nas suas escolhas. Acreditamos que as coisas estão mudando, pois as empresas começam a entender que o mais importante é o que os profissionais têm a lhes oferecer e assim contribuir para que as organizações mantenham-se competitivas no mercado”, afirmou, também em declaração institucional.

Experiências positivas

Uma iniciativa de três amigos Daniela Andrade, Márcia Rocha e Paulo Bevilacqua vem contribuindo pouco a pouco para uma mudança dessa realidade. Eles são responsáveis pela criação do “Transempregos”, primeiro site de empregos exclusivo para o público trans. Os currículos são cadastrados e as empresas interessadas entram em contato com os candidatos e iniciam o processo de seleção e posteriormente contratação. As vagas vão desde estágios a empregos com horários integrais.

Um outro site, ainda em fase de ajustes é o “Transerviços”. A plataforma permite que transexuais e travestis ofereçam seus trabalhos e ainda disponibiliza aos usuários o cadastro de outros profissionais que atendam esse público.

“Ações como essa são mais do que importantes. O site me abriu para um mundo de possibilidades. Hoje, trabalhando como vendedor, consigo tirar o meu dinheiro todo mês e pagar minhas contas. Com esse emprego passei a me sentir protegido, é como se eu tivesse voltado a ser gente sabendo que meus direitos enquanto cidadão estão sendo assegurados”, destaca o transexual Gabriel Rivail‎, 29 anos, residente em Curitiba, Paraná.

Ainda há muito o que ser feito, mas os passos fundamentais estão sendo dados, a exemplo de iniciativas como o Transempregos e o Transerviços. Cabe a nós, enquanto sociedade, buscar formas para colaborar gradativamente com essas mudanças. E o ponto de partida é compreender que a diversidade existe e o trabalho transforma.

Reportagem elaborada na disciplina Oficina de Texto em Jornalismo II, sob orientação do professor Paulo Victor Melo.